Malu nunca havia beijado um homem. Jovem e bela, fez o juramento de que só beijaria o namorado, Ricardo, depois de casada. Também se recusava a ser vista de maiô na piscina da casa do pais. O namorado devia esperar o casamento para conhecer seu corpo. Devia apenas imaginá-lo, escondido sob longos vestidos. Segundo Malu, essa era ''uma maldade inteligente de mulher''.
No dia de marcar a dada do casamento, Ricardo suplica desesperadamente um beijo a Malu. Um único beijo, ou seria capaz de colocar um fim na própria vida. A moça, com determinação, mantém sua intenção de beijá-lo apenas após o casamento. Diante da recusa, Ricardo tira um revólver do bolso e dispara um tiro na própria cabeça. Se mata na frente de Malu, num gesto de vingança.
Malu cai em prantos arrependida. Não chora apenas por não ter beijado Ricardo, salvando sua vida. Chora porque sente-se infeliz por não ter provado a boca do namorado antes de sua morte. Sua mãe, Lígia, chora tanto quanto a filha. De joelho, revela um íntimo segredo. Declara-se tragicamente mais feliz que a filha: ''Porque a mim ele beijou e a você não!''. Malu, colocando os pratos da vingança na mesa, jura nunca ser fiel a um homem pelo resto de sua vida.
Assim pode ser resumido o primeiro capítulo do folhetim ''Escravas do Amor'', escrita por Suzana Flag em 1944 e publicada no mesmo ano em dezenas de jornais dos ''Diários Associados'' de Assis Chateaubriand. Os capítulos saíam diariamente e cumpriam o mesmo papel das novelas de televisão nos dias de hoje. Alguns jornais chegavam a duplicar a tiragem durante os dois meses que duraram a publicação da história. As donas de casa vibravam com cada episódio e esperavam com ansiedade os próximos capítulos.
Suzana Flag já havia feito sucesso com outro folhetim, ''Meu Destino é Pecar'', publicado em ''O Jornal'', em 1944. O que pouca gente sabia é que Suzana Flag era o pseudônimo do dramaturgo pernambucano Nelson Rodrigues (1912 - 1980). Vivendo o apogeu de seus textos teatrais, Nelson Rodrigues não queria que seus folhetins se confundissem com ele. Assim, assinou como Suzana Flag uma série de histórias escritas para jornais.
Após sair na imprensa, ''Escravas do Amor'' foi publicada em forma de livro, permanecendo esquecida por décadas. Agora, 57 anos depois, a Editora Companhia das Letras está lançando a segunda edição da obra. Uma oportunidade para que as novas gerações conheçam uma das histórias mais delirantes de Nelson Rodrigues.
Se as novelas da televisão brasileira dos últimos 30 anos sempre trabalharam contrapondo temas como a bondade e a maldade, a riqueza e a pobreza, o amor e o desprezo, essa fórmula já estava desenhada nos folhetins de Nelson Rodrigues. Com um fator a mais: os desejos sexuais mais ocultos espalhados nas entrelinhas. Onde todos os sentimentos só existem nos pontos extremos, no amor ou na morte.
O folhetim um gênero literário praticamente extinto no mundo contemporâneo exige do escritor princípios básicos que, se não forem cumpridos, podem provocar o desinteresse no leitor. E um dos objetivos é causar no leitor o desejo de ler o próximo capítulo assim como as novelas da televisão. A agilidade das ações das personagens, bem como questões deixadas em suspenso para ser concluídas no dia seguinte, são os dois princípios iniciais.
Em ''Escravas do Amor'', Nelson Rodrigues leva esses dois princípios à alta potência. Em cada página uma nova ação é inserida, desencadeando outras ações em cadeia. Em algumas situações, lembra o ritmo delirante de uma história maluca em que tudo e qualquer possibilidade é provável. O absurdo também aparece como tempero. O interessante é que o dramaturgo não se restringe a gerar ações temporais ou espaciais, mas ações psicológicas alucinantes. Esse é seu maior mérito.
O turbilhão emocional o furacão de desejos confessos e inconfessos das personagens que lentamente vão se agrupando na narrativa, aponta para uma solução improvável. Mas, no último capítulo, como nas novelas das oito, tudo se resolve culminando num final feliz. Com direito a casamento e lua-de-mel, deixando evidente que o brega é eterno dentro da cultura brasileira.
As situações criadas por Nelson Rodrigues em ''Escravas do Amor'' estão todas presentes até hoje nas novelas de televisão. O jardineiro que se apaixona pela patroa, as crianças trocadas no berço da maternidade, o marido dando suas puladas de cerca sob consentimento da esposa, a chantagem amorosa e monetária, as orelhas ouvindo conversas atrás das portas, as ocultas relações incestuosas, os acidentes trágicos que provocam dó e pena, as fofocas premeditadas, etc, etc e etc.
Com essas situações de caráter popular, e talvez inovadoras para a época em que foram criadas, o autor insere características próprias. Aquelas que delinearam suas peças como ''Vestido de Noiva'', ''Toda Nudez Será Castigada'', ''Álbum de Família'', ''Perdoa-me Por me Traíres'', ''O Beijo no Asfalto'' e ''Viúva, Porém Honesta''. As frases de impacto, por exemplo, aparecem como uma espécie de síntese dos fatos: ''A mulher que não ama é incapaz de perdoar o namorado ou o noivo ou o marido infiel.''; ''A verdadeira mão sacrifica-se.''; ''Um perigo, a mulher recalcada!''; ''Nenhum homem vale uma lágrima!''; ''Uma mulher que envelhece põe tudo em cada sentimento!''.
A história narrada em ''Escravas do Amor'' é centrada na rivalidade entre mãe e filha, Malu e Lígia. Malu procura se vingar da mãe por ela ter roubado um beijo de seu namorado. Lígia luta para não se apaixonar por um adolescente sob a culpa da infidelidade no casamento. A essa situação se juntam vários homens tentando conseguir o amor tanto de Malu quanto de Lígia. Para temperar a rotina, o marido de Lígia, pai de Malu, leva a amante para morar com a família. Além disso, uma série de personagens, grande parte deles surgidos do nada, entram na alucinada trama. Intrigas e chantagens são moeda corrente. Ouvir conversas atrás das portas é tão rotineiro quanto um cafezinho.
Um dos pontos determinantes do folhetim de Suzana Flag é o beijo. Um elemento recorrente na obra de Nelson Rodrigues. Um beijo na boca representa um compromisso eterno, uma união para toda a vida. O beijo assume um valor muito superior ao ato sexual propriamente dito. Ele, por si só, é representado como um ato sexual simbólico. E um único beijo pode selar o destino dos amantes para o resto da vida. Nesse contexto rodriguiano, o beijo na boca é acalentado e perseguido de maneira incansável e desesperada.
O beijo, em ''Escravas do Amor'', representa todo desejo sexual. Isso porque não existe sexo nos folhetins de Suzana Flag. A libido está toda confinada a uma forma restrita de união sexual: o contado dos lábios, das línguas. Curiosamente, os mesmo locais por onde passam todo o veneno das intrigas e todo o antídoto do amor. Nesse simbolismo, o contato físico dos corpos dos amantes acontece apenas no campo da imaginação tanto do ponto de vista dos personagens quando do ponto de vista do leitor.
Em outras palavras, aquilo que se mantém oculto, o que não permanece evidente, pode despertar um desejo maior, uma maior curiosidade, um impulso imaginativo de grandes proporções. Suzana Flag, o lado feminino de Nelson Rodrigues, expõe os desejos ocultos mas não os apresenta de maneira nua. Prefere mostrá-los com um vestido longo, cabendo ao leitor imaginar suas curvas. No meio de um baile de delírios. Faz a grande diversão dos brasileiros na década de 40.


''Escravas do Amor'', de Suzana Flag (Nelson Rodrigues), Editora Companhia das Letras, 544 páginas, R$ 39,00.

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