'Pietà' leva o Leão de Ouro
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domingo, 09 de setembro de 2012
Luiz Zanin Oricchio <br> <br> Agência Estado 
Veneza - Havia três ou quatro filmes em condições de vencer o Festival de Veneza. Um deles, ''Pietà'', do coreano Kim Ki-Duk levou o Leão de Ouro. ''The Master'', do americano Paul Thomas Anderson, ganhou o Leão de Prata de melhor direção e ainda dividiu a Coppa Volpi de ator entre seus protagonistas Philip Seymour Hoffman e Joaquin Phoenix. ''Après Mai'', de Olivier Assayas ficou com o prêmio de roteiro. E ''La Bella Adormentata'', do italiano Marco Bellocchio, deu apenas o prêmio Marcello Mastroianni, de ator estreante, a Fabrizio Franco, lembrado também por sua atuação em outro concorrente italiano, ''ô Stato il Figlio''.
O Prêmio Especial do Júri foi para o anticlerical ''Paraíso: Fé'', do austríaco Ulrich Reidl. A Coppa Volpi de atriz ficou para Hadas Yaron, pelo inexpressivo israelense ''Fill the Void''. Duas decisões contestadas pelo público que seguia a premiação. Fechando a lista de contemplados, ''ô Stato il Figlio'', de Daniele Cipr, teve sua fotografia reconhecida com o prêmio de melhor contribuição técnica. E foi só.
São assim as premiações em Veneza. Poucos troféus. E, às vezes, muita intriga e confusão. Desta vez não foi diferente. Já no palco da Sala Grande, a principal do evento, percebia-se que algo não ia bem. Tenso, o presidente do júri, o diretor norte-americano Michael Mann (''Miami Vice'') trocou as bolas e inverteu os vencedores de Leão de Prata (direção) e Prêmio Especial do Júri. Os troféus tiveram de ser destrocados ainda no palco, sob constrangimento geral.
Depois, na tradicional coletiva de imprensa que se segue à cerimônia, houve novos momentos de saia justa. Em especial quando uma jornalista perguntou ao jurado Matteo Garrone (de ''Gomorra'' e ''Reality'') o porquê da pífia premiação dos concorrentes italianos. Garrone estava prestes a responder quando foi interrompido por Mann, dizendo que o júri não discutiria seus critérios internos e que nacionalidades não foram cogitadas nas escolhas. Houve outra tentativa de extrair alguma coisa de Garrone e Mann, de novo, não deixou. Foi apoiado pela atriz Samantha Morton, também jurada, que ainda considerou as perguntas ''indelicadas''.
O caráter autoritário de Mann ficou claro na resposta que deu a um jornalista. Perguntado por que haviam elegido Hadas Yaron melhor atriz, limitou-se a responder: ''Porque a consideramos a melhor atriz''. Sorrisos amarelos dos outros membros do júri. O homem é um caubói e não estava lá para dar satisfações a ninguém.
Na própria noite de premiação, a influente revista ''Hollywood Reporter'', soltou em seu site matéria afirmando que o júri, inicialmente, queria dar o Leão de Ouro a ''The Master'', de Paul Thomas Anderson. Mas, surpreso com a regra de Veneza, que impede o acúmulo do Leão de Ouro e outros prêmios pelo mesmo filme, teria se irritado e resolvido premiar Kim Ki-Duk. Pode ter acontecido isso, mas não faz muito sentido. Não seria a primeira vez que essa regra é contestada. Em 2009, Tarantino, então presidente do júri, disse que essa disposição teria de ser mudada. Não foi. Mas um corpo de jurados desconhecer a regra seria a mesma coisa que dois times de futebol profissional ignorarem que não se pode colocar a mão na bola. Seja como for, as fofocas ferveram noite adentro e ainda devem se fazer ouvir pelos próximos dias, até o resultado ser digerido.
Alheio à polêmica, Kim Ki-Duk comemorou e muito o seu Leão. Chegou a cantar no palco, enquanto os jurados e público o ouviam com caras de tacho. Lembrou que já apresentara outros filmes em Veneza e agradecia este festival por tê-lo tornado conhecido no mundo ocidental. ''Talvez esse prêmio facilite um pouco a divulgação do meu trabalho também em meu país'', disse, emocionado. Durante sua estada em Veneza, Kim Ki-Duk lembrou várias vezes que era mais conhecido na Europa que na Coreia.
O premiado principal tem muitos méritos, embora não seja unanimidade. Conta a história de um cobrador de dívidas que trabalha para um usurário. Com seus métodos de cobrança cruéis, que consistem em forjar acidentes para que os endividados possam levantar indenizações e assim pagar o credor, ele é o protótipo do ser amoral. A vida muda com a chegada de uma mulher que se apresenta como sua mãe. Cruel, forte, poético, encantou parte da crítica e o público em Veneza. O júri o reconheceu. Um crítico importante como Paolo Mereghetti, do ''Corriere della Sera'', acha o filme ''mecânico'' em sua demonstração dos malefícios do ''capitalismo extremo'', como o definiu Kim Ki-Duk. Há espaço para discussão. Mas Pietà impressiona, não há como negar.


