São Paulo, 10 (AE) - No Brasil passou despercebido, mas um dos atores mais radicais do cinema, o francês Pierre Clémenti
morreu no fim do ano passado. Clémenti, que tinha 57 anos, morreu de câncer no fígado, em Paris, dia 27 de dezembro. Havia alguns anos já era carta fora do baralho no jogo marcado do cinema. No entanto, trabalhou com os grandes deste século: Buñuel, Bertolucci, Pasolini, Gláuber Rocha.
Ator, também ensaiou seus passos como diretor de filmes underground, como "Visa de Censure" e "New Old". Mas dele, ficam mesmo as interpretações iluminadas na tela, compondo personagens extravagantes, possessos. Seu tipo físico - magro, olhar desvairado, ar de quem viu um banho pela última vez quando bebê - ajudava bastante nesse tipo de caracterização. Clémenti praticava uma arte bruta, que fascinou em seu tempo gente como André Breton, Nathalie Sarraute e Samuel Beckett.
Em seus anos de formação, Clémenti lembrava o desregramento e a insolência de um Rimbaud, poeta que ele adorava. Era filho de uma zeladora de prédio e nunca conheceu o pai. Suas primeiras aulas de interpretação, se o termo cabe, foram num reformatório onde foi parar com 13 anos. Lá, um educador de boa vontade conseguiu inocular no delinquente o gosto pela poesia e pela representação.
Seu primeiro grande papel no cinema foi em 1962, como o filho do príncipe Salinas em "O Leopardo", de Luchino Visconti. Conta-se que o aristocrático (embora comunista) Visconti teria estranhado quando lhe apresentaram o candidato, um jovem com cara de bandido (o que ele quase era), vestido de andrajos. "Mas é esse tipo esfarrapado que quer viver um príncipe?", espantou-se. Clémenti respondeu: "Mas olhe para as minhas mãos; são mãos de aristocrata". De fato. Mãos que nunca tinham pegado no pesado. De qualquer forma, o novato deu conta do recado e iniciou uma carreira fecunda.
Mas claro, sua melhor vocação como ator não era a de representante da burguesia, mas de embaixador da margem da sociedade, de onde tinha vindo, onde se sentia bem e tinha vontade de permanecer. Assim, é genial a sua caracterização do amante sádico de Catherine Deneuve em "A Bela da Tarde", de Luis Buñuel. Se você gosta do filme lembra-se dele, um sapo feio perto da beleza alva e quase sobrenatural da atriz. Clémenti era tudo o que Buñuel precisava para compor aquela cena estranha: sujo, roupas amarrotadas, o dedão do pé escapando pelo buraco da meia, o dente de ouro na boca estragada.
Verdade, o casal contracenou também em "Benjamin", no qual Clémenti fazia um dândi. Mas sem um décimo do valor de verdade do cafajeste que abusava da prostituta ocasional. Notável também é o trabalho de Clémenti como um dos peregrinos de "O Estranho Caminho de Santiago", filme que Luis Buñuel dedicou à história das heresias. Sua temperatura cênica convinha
também, ao antropófago de "Pocilga", um dos melhores títulos de Pier Paolo Pasolini, e ao Cristo travestido de Che Guevara de "Cabeças Cortadas", que Gláuber Rocha fez durante seu exílio.
Um projeto podia ser tentador, mas Clémenti o recusava se não acreditasse no papel. Assim, perdeu a oportunidade de trabalhar com outro grande, Federico Fellini, que o convidou, sem sucesso, para o seu "Satyricon". Um dos seus últimos trabalhos no cinema foi com o português João César Monteiro, cineasta nada convencional, para dizer o mínimo. Monteiro é dos poucos que hoje propõem o que Pierre Clémenti buscava: o choque pela arte radical. Era já uma avis rara num mundo conformista.