Wim Wenders diz que seu novo filme, ‘‘O Fim da Violência’’, não é moral. Teme provavelmente que o espectador detecte nessa fábula sobre os efeitos da representação da violência comercializada por Hollywood a ingenuidade que sempre esteve por trás de seu ponto de vista de cineasta.
A mesma ingenuidade, até ‘‘Asas do Desejo’’, lhe garantia um cinema original, romântico e inocente, mas se tornou constrangedora, por se revelar como a sustentação de uma falsa moral, a partir de ‘‘Até o Fim do Mundo’’.
Wenders sempre foi um cineasta moral. E é curioso como suas principais preocupações (com a corrupção do mundo e do cinema, e uma nostalgia de um tempo mítico, que sobrevive em sentimentos simples e numa imagem idealizada das crianças) parecem ter de repente perdido o rumo, passando a animar histórias totalmente rocambolescas e artificiais. Farsescas, acabam por se revelar imposturas de uma falsa inocência.
Mais de um crítico chegou a dizer que ‘‘O Fim da Violência’’ marcava o final dessa fase e a volta a um cinema mais autêntico. É difícil concordar. No filme dois enredos se cruzam. De um lado, um rico produtor de Hollywood, especializado em filmes violentos, é sequestrado depois de receber um e-mail com informações secretas sobre um projeto do FBI. Do outro lado, no alto de um observatório em Los Angeles, um cientista simpático e pobre desenvolve e instala, para o FBI, um sistema de vigilância capaz de transformar a cidade num hall de prédio de escritórios vigiado por câmeras por todos os lados.
O objetivo do projeto é acabar com a violência, criando uma espécie de ‘‘Grande Irmão’’ onipresente e onisciente, que tudo vê e pune. Ninguém pode saber da existência do sistema antes de sua aprovação pelo Congresso. Ao receber essas informações secretas, o produtor de filmes violentos se torna uma peça que precisa ser eliminada da engrenagem.
Conseguindo escapar, no entanto, e usando a experiência do sequestro como um sinal dos céus, ele passa a refletir sobre o que vinha fazendo: a comercialização da violência - e se emenda. Passa a viver na clandestinidade, unindo-se em sua nova vida aos fracos e oprimidos: os chicanos e as crianças. Wim Wenders diz que seu filme não é moral e que não tem mensagem. De fato, não é um libelo totalmente simplista contra a violência e sua representação - os que dizem querer eliminá-la são capazes de matar quantos forem necessários para concretizar seu objetivo.
E, ainda assim, ao final o espectador também ouve uma voz dos céus, só que pela boca do produtor reformado pela escola da vida. Qualquer coisa do tipo: ‘‘A violência não está em inimigos alienígenas, mas em nós mesmos’’. O cineasta não poderia ter chegado a conclusão mais sensata. Mas, se levasse isso realmente ao pé da letra, saberia que não é com a pedagogia da pieguice que vai chegar a algum lugar. Ela é o outro lado da mesma moeda que sustenta o cinema violento de Hollywood.

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