- O senhor poderia me conceder uma entrevista?
- Sinto muito, mas eu não dou entrevista.
- Não? Por que?
- Porque eu só dou ‘‘entreolhadas’’.
Do outro lado da linha, atendeu o cidadão Ricardo Queirolo. Que não resistiu e permitiu que seu alter ego, o palhaço, aliás o grande palhaço Picolino, desse o ar da graça. ‘‘Entreolhada’’ agendada, quem nos recebe é um senhor de 76 anos, bonachão, boa pinta, simpático que exibe com orgulho seus troféus e diplomas, álbuns de fotografias registrando as glórias de mais de 30 anos de carreira. Está tudo em seu escritório. Logo, logo a parede irá acomodar mais uma honraria: o Título de Cidadão Honorário que a Câmara Municipal de Londrina vai outorgar-lhe amanhã, às 20 horas. A iniciativa partiu da vereadora Elza Correa.
Pois bem, o diploma certamente vai ganhar um lugar de destaque na casa de Ricardo Queirolo, o eterno Picolino que fez e faz muita gente dar sucessivas risadas. Ora, senhores, estamos diante de um mito da arte circense nacional. Que depois de dez anos do recebimento do diploma de Cidadão Honorário do Paraná, recebe o reconhecimento da cidade onde mora desde 1958. ‘‘O povo de Londrina, através da Câmara Municipal, está me elevando, me engradecendo com esse título. Faltam-me palavras para poder dizer a você o orgulho que estou sentindo’’- confessa.
A seguir os principais trechos da entrevista que Ricardo ‘‘Picolino’’ Queirollo concedeu à Folha2.
Arquivo FolhaRicardo Queirolo recebe amanhã o título de Cidadão Honorário de Londrina, mais uma honraria entre as muitas que já recebeuO senhor estava dizendo que este título da Câmara Municipal de Londrina o tocou profundamente...
(Emocionado) Desculpe, fico até engasgado para falar. Esse título me enche o coração de alegria porque aqui, em Londrina, nasceram meus filhos, aqui fiz minha carreira... E o povo de Londrina, através da Câmara Municipal, está me elevando, me engrandecendo com esse título. Faltam-me palavras para poder dizer a você do meu orgulho, do meu agradecimento, do meu bem querer ao povo londrinense porque é ao povo londrinense a quem devo tudo o que sou.
Então quer dizer que esse título tem muito mais importância que os demais?
Muito mais. Olha...Desculpe, eu fico engasgado. Não sei se vou conseguir falar direito no discurso que vou fazer na Câmara.
Eu sei que é difícil, mas o senhor deve ter um momento que guarda com um carinho maior?
Olha vou lhe dizer porque tenho Londrina no coração. Na época do Dalton Paranaguá ( NR ex-prefeito de Londrina) foi inaugurado o Moringão. Nós conseguimos fazer um show com 17 mil crianças...
Mas pela capacidade do Moringão não cabe tudo isso...
Pois é, pra você ver. Mas criança é menor... Foi uma coisa assombrosa. Quando entrei foi uma ovação, as crianças balançando os bracinhos...Olha ( NR Picolino mais uma vez se emociona) eu não morri porque meu coração é forte...
O senhor está chorando?
Tô, estou sim...Eu sou muito emotivo.
O senhor se lembra de algum episódio que realmente o deixou triste nesses anos todos de carreira?
A tristeza não vive no coração do palhaço.
Mas vive no coração do homem...
Do homem sim, do homem sim. Mas o palhaço quando vai se apresentar ao público... O público não tem por que ver o palhaço triste ou chorando. O palhaço quando entra tem que deixar a tristeza pendurada no camarim para levar só a alegria às crianças. Sinceramente vou lhe dizer uma coisa: sou um homem como todo homem, tenho meus prós e contras. Tenho uma família e tenho, como todas as famílias, meus problemas. Mas não levo problema nenhum para qualquer espetáculo que eu faça.
O senhor tem idéia de que é uma espécie de lenda viva da alegria de Londrina?
(Encabulado) Não, não tenho.
Pois eu lhe digo que o senhor é um mito porque já fez rir muitas e muitas crianças. E não bastasse, o nome Picolino é respeitado e citado por várias gerações.
Ah, isso sim. Outro dia fui entrevistado numa emissora de TV e a apresentadora disse: ‘‘Olha, estou feliz porque estou conhecendo o Picolino.’’ E eu respondi: ‘‘Também fico feliz porque o meu sucesso eu devo a você porque sou o palhaço da geração a quem também levei alegria.’’
O que o Picolino tem diferente dos outros palhaços?
A única coisa que eu acho que o Picolino tem que os outros palhaços não têm é que o Picolino é um cidadão tranquilo, que não depende da profissão. Os outros palhaços dependem da profissão. O Picolino, então, é um palhaço diferente dos outros porque não depende do bit-bit, do arame, do carvão.
Eu vou sempre a circos e o que vejo atualmente são os palhaços relegados a segundo plano. Ou seja, eles servem apenas para prender a atenção do público enquanto se monta ou desmonta equipamentos. Mas a que situação chegou o palhaço, não?
Pois é, e você sabe por que?
Por que?
Na última vez que o circo do Orlando Orfei esteve aqui, eu decidi falar com ele. Eu disse: ‘‘Seu espetáculo é ótimo, excelente, gostei muito. Mas os seus palhaços são muito fracos, vocês precisam investir mais nos palhaços.’’ Sabe o que ele me respondeu? ‘‘Eu não invisto em palhaços.’’
Nossa!!
É, ele disse que não investia em palhaços e, sim, em atrações. E eu disse: ‘‘É um erro porque o circo sem o palhaço não vive.’’
O que faz um bom palhaço? Basta apenas ser engraçado?
O palhaço tem que ter vivência, tem que estar sempre lendo e acompanhando todos os desenvolvimentos da vida para que ele... Eu por exemplo, nunca mexi com política, com religião, com pornografia. E olha que trabalhei durante a ditadura quando a Polícia Federal ficava em cima. Quer dizer, nunca fui chamado atenção pela Polícia Federal. E fico lisonjeado com isso. Palhaço tem que fazer palhaçada. Eu vou interromper meu raciocínio para contar o que aconteceu certa vez comigo. Eu estava no camarim me vestindo e chegou um guarda dizendo que havia um senhor com um menino que gostaria de ver eu me vestindo de Picolino. Deixei entrar. Aí o pai disse: ‘‘Olha, meu filho, esse é o Picolino que você gosta tanto.’’ Eu me abaixei para dar um beijo no menino e ele me deu uma bolacha no escutador de novela. O pai ficou vermelho, branco, de todas as cores.
E daí?
O pai dele me pediu perdão e eu disse: ‘‘O senhor não tem que pedir perdão.’’ O garoto fez aquilo porque viu que o palhaço apanha mesmo. Bem, deixei o menino à vontade e o pai ficou no céu. Só que o menino não sabe que existe um truque quando se bate. A gente bate fingindo que é um tapa.
O senhor deve ter um número cômico que sempre ganha o público, certo?
Tínhamos uma banda que explodia. E quando a banda explodia, o nariz de um palhaço acendia, o nariz do outro ia pra frente e pra trás e o outro levantava o chapéu e o outro a barriga dançava. Aí, não tinha como alguém segurar o riso.
Esse truque funciona até hoje?
É infalível, funciona até hoje.
O senhor estava me dizendo que não pretende pendurar as chuteiras do Picolino tão cedo...
Eu acredito que não porque tem duas TVs insistentemente pedindo para eu voltar. Seria um programa infantil.
Para a gente terminar, conta uma piadinha que faz parte do seus shows?
Olha, eu sou um cidadão muito feliz porque minha mãe disse que no dia em que nasci ela viu estrelas.
Ela viu estrelas, então?
E tem mais: eu sou o único cidadão no mundo que tem sangue de três raças. Tenho sangue de alemão, de francês e inglês. Isso ninguém tem no mundo.
Ah, é?
É. Ora veja bem: o sangue alemão por parte de minha mãe, sangue francês por parte do meu pai e... sangue inglês por parte de um amigo de meu pai.
Depois dessa só posso dizer uma coisa: você é grande, Picolino!
Obrigado.Arquivo FolhaO artista Picolino fala de sua profissão: ‘‘O palhaço tem que deixar a tristeza pendurada no camarim’’Antônio Mariano Júnior

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