Francelino França
De Londrina
Pintor, escultor, poeta, dramaturgo, um artista multimídia, enfim. Genial e polêmico, Pablo Picasso deixou sobretudo um inestimável legado artístico à humanidade
O itinerário artístico e humano de Pablo Ruiz Picasso é demasiadamente rico para ser reduzido a fórmulas e explicações. Pintor, escultor, desenhista, gravurista, ceramista, Pablo Picasso deixou uma qualidade misteriosa em todas as formas de arte em que atuou. A exuberância de sua criação se estende também à cenografia, poesia, ilustrações e ainda uma peça teatral. Mas o que está em evidência, pelo menos agora no Brasil, é a exposição ‘‘Anos de Guerra’’ que reúne 150 obras ( entre pinturas, esculturas e fotografias) e pode ser vista no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, até 7 de setembro.
Filho de um professor de pintura, Picasso nasceu na pequena Málaga, em 1881, e precocemente transbordou talento - começou a pintar aos 10 anos de idade. Aos 14, já ingressava na Escola de Belas Artes de Barcelona, passando de forma brilhante nos exames, logo recebendo prêmios oficiais.
Em 1897, seguia para Madri para estudar na Academia Real de San Fernando. Na virada do século, o artista espanhol se estabelece na capital francesa, mais precisamente em Montmatre, o que iria se refletir de forma determinante na sua pintura. Fascinado pela vida boêmia, Picasso retrata os cafés, cabarés e figuras da noite. Começa a ‘‘Fase Azul’’, quando retratou mendigos, alcóolatras, prostitutas, pobres e marginalizados pela sociedade, se valendo basicamente dos tons escuros e cinzas, ressaltando o azul.
O foco de sua pintura após 1904 é dirigido aos temas circenses, vistos em trabalhos como ‘‘Os Saltimbancos’’ (1905). Em 1906, Picasso conclui o famoso ‘‘Retrato de Gertrude Stein’’, preconizando mudanças em sua pintura, abandonando um pouco a jovialidade dos tons rosas e laranjas para mergulhar em tons mais sombrios e escuros.
No período em que vivia na França, descobre a arte primitiva ibérica, a grega e também a arte negra, em particular as máscaras africanas, ao visitar o Louvre. Esse contato foi fundamental para a grande guinada que estava por vir em sua carreira. Influenciado ainda pela pintura de Cézanne, com seus volumes únicos e sólidos, Picasso pintou o quadro ‘‘Les Demoiselles d’Avignon’’ (1907). A obra é considerada a pedra angular do cubismo e a maior revolução até então em quase cinco séculos de pintura ocidental.
Nesse quadro, o pintor revelou os vários lados de uma mesma figura em um único plano, abolindo a perspectiva e a profundidade, como se fossem colados pedaços de vidro ou ‘‘pequenos cubos’’. Os primeiros trabalhos cubistas de Picasso demoraram para serem assimilados, não obtiveram aceitação imediata, nem dos amigos mais próximos, muito menos da crítica.
Em 1912, Picasso criou sua primeira colagem, ‘‘Natureza Morta com Cadeira de Palhinha’’, que marcou a transição para o cubismo sintético, e também criou ‘‘Guitarra’’, com o volume invertido, considerada a primeira escultura moderna.
Entre os anos de 1914 e 1918, durante a Primeira Guerra Mundial, Picasso parte para Roma. Conhece então a bailarina Olga Kokhlova, com que se casa e tem um filho, Paulo, em 1921. Nesta época, Picasso produz trabalhos cubistas e outros de estilo neoclássico. Os dois caminhos que percorre se unem, mais uma vez abrindo novas fronteiras nas artes plásticas.
As décadas de 20 e 30 foram marcadas por trabalhos inspirados na mitologia, e em figuras femininas, que tanto podiam assumir formas arredondadas e esculturais, ou distorcidas e grotescas. Definitivamente, Picasso não se considerava um surrealista. No período em que o movimento ganhava corpo com Miró, Dalí e Magritte, várias de suas pinturas desta fase apresentavam características que remetiam ao estilo surrealista, entre elas ‘‘Mulher Dormindo no Armário’’ (1927).
O nu feminino dominou fartamente os loucos anos 30, quando as formas cubistas deformavam, metamorfoseavam e criavam novos corpos, fortemente erotizados. Nesta época, conhece seu novo amor, Marie Therese Walter, que lhe dá uma filha, Maya, em 1935. Normalmente retratada dormindo, Marie Therese foi também modelo do famoso ‘‘Moça Diante do Espelho’’ (1932).
‘‘Guernica’’, obra fundamental para a arte do século ‘‘XX’’, pintada em 1937, é o mais pungente painel pintado em Paris pelo artista (6m x 3,5m). O grandioso mural retrata os horrores da guerra. ‘‘Guernica’’ é repleta de simbolismos, onde se encontram temas recorrentes como o cavalo, o touro e as figuras femininas, inspiradas pelas mulheres com quem se relacionou.
Durante a Segunda Guerra, Picasso se desloca constantemente entre Paris e Royan, sem, no entanto, deixar de realizar novos trabalhos, nos quais os temas femininos ainda predominam. Em 1943, concebe a célebre escultura ‘‘Caveira’’. Nesse mesmo ano, conhece Françoise Gilot, com quem tem dois filhos: Claude e Paloma, que aparecem em vários trabalhos do pintor. Ao mesmo tempo, filia-se ao Partido Comunista. Seu engajamento político e sua presença na França ocupada o transforma em um símbolo e o coloca no centro das atenções da vida artística do país.
No pós-guerra, começa a trabalhar com cerâmica, produzindo cerca de duas mil peças no final da década de 40 e início dos anos 50. Nesse período, ‘‘A Pomba’’ é escolhida para o cartaz do Congresso da Paz. O casamento com Jacqueline Roque acontece em 1961.
Entre 1966 e 1973, cria três importantes séries de desenhos, entre as quais uma série de 347 gravuras. O artista revisita temas como o circo, as touradas, o teatro e o amor. Quando completa 90 anos, Picasso ganha uma exposição no Louvre, honra jamais concedida até então a um artista vivo. No dia 8 de abril de 1973, Pablo Picasso morre na vila Notre-Dame-de-Vie, perto de Mougins, França, aos 92 anos. Deixou um legado artístico inestimável.
O preço da genialidade do artista foi pago pela família. Ele não permitia a visita de seus netos, enquanto estava trabalhando. A neta Marina Picasso afirmou em livro o desastre que ele foi para a família. O neto Pablito bebeu veneno na manhã do enterro do avô. Marie Therese Walter enforcou-se e Jacqueline Roque deu um tiro na cabeça.
A primeira esposa, Olga Kokhlova enlouqueceu. Dora Maar, companheira do artista no final dos anos 30, enfrentou colapsos nervosos, sendo tratada com eletrochoques. Todas as desgraças, segundo a biógrafa Ariana Stassionopoulos, teriam origem na personalidade do artista. No livro ‘‘Picasso: Criador e Destruidor’’, ela coloca Picasso como homem brutal com as mulheres, incapaz de demonstrar afeto, destrutivo com os amigos e indiferente com seus filhos.

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