Curitiba - Durante quase duas décadas, a reserva técnica do Museu Municipal de Artes (Muma), em Curitiba, guardou obras de valor inestimável, que só agora chegam ao alcance do público com o destaque merecido. São gravuras e cerâmicas de Pablo Picasso (1881-1973), artista espanhol sem precedentes. É espantoso que obras do artista estiveram durante tanto tempo relegadas a uma sala fechada, quando o Brasil inteiro já chegou a ter uma lacuna de cerca de 50 anos sem uma obra exposta do pintor, escultor, desenhista, gravurista e ceramista em suas salas de exposições.
As quatro obras que estavam no Muma (duas gravuras e duas cerâmicas) assinadas por Picasso foram adquiridas pelo paranaense Poty Lazarotto, no início da década de 40. Em 1980, antes mesmo da morte de Poty, elas teriam sido encaminhadas ao Muma em regime de comodato, já que foram doadas em testamento para Fundação Cultural de Curitiba. Agora, as obras ganham espaço no Museu da Gravura.
A mostra ‘‘Picasso’’ traz, além das gravuras e cerâmicas, texto escrito pelo próprio autor (confira nesta página) descrevendo as imagens pintadas em água-forte e água tinta, e também acompanha um vídeo sobre Picasso. O filme ‘‘O Mistério de Picasso’’ foi realizado por Henri George Clouzot, em 1952. É um ensaio artístico que aborda a poética da criação do artista e sua relação com a metamorfose da modernidade. Em uma das cenas, mostra Picasso pintando um papel transparente, que dá efeitos surpreendentes ao filme. Na outra, ele aparece pintando em óleo sobre tela.
Para a curadora da mostra, professora Cassiana Lícia de Lacerda, o vídeo é ‘‘imperdível’’, assim como a mostra das poucas, mas significativas obras do artista espanhol. Ela explica que as gravuras e cerâmicas de Picasso só foram reveladas agora porque só na gestão atual a Fundação Cultural está reforçando a política de reservar as salas dos museus de Curitiba para o acervo. ‘‘Para que o público tenha mais acesso às obras’’, frisa.
A mostra ‘‘Picasso’’ é composta por duas gravuras, intituladas pelo autor de ‘‘Sonho e Mentira de Franco I e II’’. São 18 imagens, acompanhadas de texto do artista. ‘‘O texto traduz a força das imagens de Picasso, satiriza o ditador espanhol Francisco Franco e destrói a fase da arte cubista, por ele iniciada’’, define a curadora da exposição. Ela explica que as obras marcaram uma nova fase de Picasso, desencadeada com o início da Guerra Civil espanhola.
As gravuras são datadas de janeiro de 1937 e são antecedentes ao famoso painel Guernica, denunciador do fascismo. Segundo a curadora relata no catálogo que deve ser lançado somente em agosto, mas que a Folha teve acesso com antecedência, quando o artista concluiu ‘‘Sonho e Mentira de Franco I e II’’ tinha idéia de imprimi-las e vendê-las separadamente. Mas, abandonou este primeiro projeto optando por não separá-las, consciente de sua unidade. Assim, concebeu uma embalagem para as duas gravuras, anexou o texto manuscrito e colocou-as à venda.
As duas gravuras foram adquiridas por Poty, em uma das suas viagens de estudo a Europa. São expostas com o invólucro original que as une. Também são mostradas na exposição, duas cerâmicas que remetem à escultura, principalmente uma delas, que tem formato de coruja. Não se sabe ao certo em quanto estão avaliadas estas obras, mas um quadro de Picasso (‘‘Femme aux Bras Croises’’) já chegou a ser vendido em leilão por UU$ 55 milhões, tamanho é a sua importância artística.
SERVIÇO
A exposição ‘‘Picasso’’ fica aberta até setembro, no Museu da Gravura de Curitiba (Centro Cultural Solar do Barão), de terça à sexta-feira, das 9 às 18 horas; sábados e domingos, das 12 às 18 horas. Entrada franca.

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