PIAZZOLA, O REINVENTOR DO TANGO
Wilmar Klein
Na noite de 4 de julho de 1992 - um sábado -, morria em Buenos Aires, aos 71 anos, Astor Piazzola, o compositor e bandoneonista que reformulou o tango, aproximando-o do jazz e da música erudita. Vinte anos antes, havia declarado numa entrevista: O tango sempre me pareceu de grande riqueza harmônica, rítmica e melódica, mas o deixaram muito estagnado e não querem que mude. Por ter ousado mudá-lo, amargou por muito tempo a incompreensão do público e da crítica, para os quais a sua música afigurava-se um atentado a uma instituição nacional. Não quero destruir, defendia-se, mas construir um tango para a geração atual e para as que virão. Não há dúvida de que o conseguiu plenamente. Assim, em dezembro de 1985, ao receber do presidente Raul Alfonsín o título de Cidadão Ilustre de Buenos Aires, agradeceu aos que o criticaram e pôde acrescentar com orgulho: Isso me estimulou e, hoje, quando a televisão põe imagens de Buenos Aires no ar, é com a minha música ao fundo.
Nascido em Mar del Plata em 1921, Astor Piazzola foi educado em Nova York até os 15 anos. Estudou piano clássico e, aos 8 anos, após ganhar de seu pai um bandoneon, iniciou-se neste instrumento com Bela Wilda, aluna do compositor russo Serguei Rachmaninov. Ainda nos EUA, tocou, aos 14 anos, na trilha sonora de El Dia Que Me Quieras, filme da Paramount (no qual também fez uma ponta) estrelado por seu ídolo Carlos Gardel. Algum tempo depois, numa festa em que cantou acompanhado por Piazzola, Gardel, talvez intuindo as ousadias formais que o jovem instrumentista seria capaz de cometer no futuro, disse-lhe: Você sabe tudo de bandoneon, mas não entende nada de tango. Na verdade, Piazzola entendia muito de tango, por isso pôde introduzir nele tantas modificações estruturais, mas por certo o resultado já não seria o tango de Gardel.
Em 1937, Astor volta à Argentina e ingressa na orquestra de tango de Aníbal Troillo, considerada a melhor do país. Passados alguns anos, abandona-a e, em 1944, cria o seu primeiro conjunto. Em 49, decide romper com o tango e estudar música sinfônica. Torna-se compositor, mas suas peças, embora apresentadas em concertos nos EUA e na Argentina, não chegam a ser gravadas. Em 1955, Nadja Boulanger, com quem aperfeiçoava os seus conhecimentos musicais em Paris, convence-o a retornar ao tango. Piazzola aceita o conselho, mas o faz com idéias próprias e a bagagem erudita adquirida, criando para o gênero uma nova roupagem. Surge o nuevo tango de Piazzola.
Os argentinos torceram o nariz às ousadias do músico. Os críticos o atacaram duramente. O público, acostumado ao tango tradicional, não entendeu aquela música. E não faltou quem se dispusesse a agredi-lo fisicamente. Como bom latino, Piazzola revidou. Mais inquieto do que nunca e confiante no valor de seu trabalho, forma vários grupos, entre eles os hoje célebres Octeto Buenos Aires e Quinteto Nuevo Tango. Torna-se parceiro do poeta Horacio Ferrer, com quem compôs diversas obras até 1967, e, na década seguinte, quando o nuevo tango, vencidas as resistências iniciais, começa a ser reconhecido nacional e internacionalmente, realiza obras com músicos consagrados como o saxofonista de jazz Gerry Mulligan.
No Brasil, onde passou a apresentar-se regularmente, tornou-se amigo de Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Elis Regina e Milton Nascimento. Tem uma composição em parceria com Chico e várias com o letrista Geraldo Carneiro (entre elas, As Ilhas, gravada por Ney Matogrosso).
Paralelamente, compôs trilhas para cinema (a de Tangos: O Exílio de Gardel, com a sensível direção de Fernando Solanas, é dele) e teve sua canção Libertango, interpretada por Grace Jones, utilizada por Roman Polanski em seu filme Busca Frenética. Grandes coreógrafos descobriram a sua música, bastando lembrar que Maurice Béjart e Vladimir Vassiliev (do Bolshoi) criaram balés para as suas composições.
Em agosto de 1990, na França, Piazzola sofreu um derrame, do qual nunca mais se recuperou. Perdeu a fala e passou a viver num estado de semiconsciência. No entanto, nos anos que lhe restaram e nos que se seguiram à sua morte, a obra deste músico que alargou as fronteiras do tango esteve mais viva do que nunca, sendo revisitada por grandes nomes do tango, do jazz e da música erudita, que continuam a prestar-lhe tributo. O mais recente é o de Gidon Kremer, um dos maiores violinistas clássicos do mundo, que acaba de lançar nos EUA o CD Tango Ballet, no qual, acompanhado por seu novo ensemble, a KremerATA Baltica, interpreta exclusivamente composições de Piazzola.
- Em homenagem ao músico argentino, o programa Contratempo, produzido por Horácio De Bonis para a Rádio Educativa, de Curitiba, estará mostrando na próxima quarta-feira, às 22h, o álbum Tango, Nuevo Tango. Última gravação ao vivo de Piazzola, o disco traz obras primorosas, como Tanguedia III, Milonga del Angel e Buenos Aires Hora Cero. Vale a pena conferir.





