O pianista Javier Papaianni, de Buenos Aires, apresenta-se hoje no Sesc/Londrina, às 21 horas. No repertório estão ‘‘Nocturno nº 3’’, ‘‘Liebestraume’’, ‘‘Rapsodia Húngara nº 6’’, de Franz Liszt, ‘‘Sonata nº 3’’, de Serguei Prokofiev, e ‘‘Rhapsody in Blue’’, de George Gershwin.
Papaianni está no Brasil desde o início do mês. Sua primeira parada foi em Foz do Iguaçu, onde tocou no Clube do Samba. Em seguida veio para Londrina, onde está há três semanas e já se apresentou no Empório Guimarães. Aluno do renomado maestro Emilio Alessio, de Buenos Aires, o pianista tem uma meta especial com estas apresentações no Brasil.
Sem uma agenda pré-estabelecida e sem estar vinculado a nenhuma instituição ou empresa, sua vinda ao Brasil foi uma iniciativa particular e independente. Como já morou por sete meses em Minas Gerais, em 1991, tem alguns contatos no País. Veio para cá, conversou com alguns amigos e saiu em busca de espaços para tocar.
Não foi uma tarefa fácil. Em um mês conseguiu três locais e alguns patrocínios - Farmácia Vale Verde e Casa de Comidas Akira, que ele faz questão de divulgar como forma de agradecimento - que cobriram apenas o aluguel das salas onde se apresentou e a divulgação dos concertos, que sempre têm entrada franca.
Mais do que mostrar sua música, Papaianni pretende estabelecer um intercâmbio entre músicos brasileiros e argentinos, independente de qualquer instituição. A idéia é promover a integração dos universos de música clássica da Argentina e do Brasil para troca de experiências. Esta é uma forma de os grandes compositores eruditos do Brasil serem divulgados na Argentina e vice-versa, além de ampliar mercados e levar ‘‘poesia e arte ao público em geral’’. Mesmo sem ter nada estabelecido, os contatos foram feitos e em março Papaianni volta ao Brasil para dar continuidade ao seu projeto.
O pianista explica que não é nenhum idealista. É a consciência beethoviana, como ele mesmo define, que o impulsiona em busca da dignidade e independência do músico. ‘‘Eu vendo arte’’, afirma. ‘‘E quero viver disto.’’ Desde os 10 anos Papaianni vem se dedicando à música. Ele começou estudando violão e a partir de 1981 começou a se apresentar como violinista com programas que incluíam obras de autores como Bach, Villa-Lobos, Sor, Brower e Piazzola, entre outros.
Na busca do aprimoramento como músico, Javier resolveu aprender piano em 1989 com o maestro Emilio Alessio, considerado um mestre. Alessio trabalha com a técnica de mestres barrocos, que visam a formação completa do músico - canto, composição, contraponto, harmonia, piano. ‘‘Normalmente o músico tem especialidades. Por exemplo, é bom pianista, mas não sabe ensinar’’, explica. ‘‘O mestre Alessio trabalha o músico em seu sentido global’’, complementa.
É esta formação que faz de um músico um mestre. De acordo com Papaianni, os mestres são raros. ‘‘Mestre vem de mageuta, denominação grega que significa parteira. O mestre é aquele vai ajudar a parir o que você é, e não aquele que vai lhe inculcar idéias’’, ilustra o pianista.
A escolha pelo piano foi por se tratar de um instrumento fundamental na formação de todo músico, pois reproduz os registros de todos os instrumentos de uma orquestra. ‘‘Trata-se do instrumento preferido de todos os compositores’’, diz. Papaianni também enveredou pelo caminho das composição. Ele possui várias de sua autoria, inclusive uma trilha sonora para uma obra moderna de teatro feita para um grupo de São João Del Rei, na época em que morou em Minas Gerais.
Em seu currículo Papaianni tem ainda um projeto que desenvolve desde 1994 nas escolas estaduais e particulares de Buenos Aires. Trata-se do programa Recitais Didáticos nas Escolas, que são realizados ao vivo, ‘‘para contagiar as crianças e despertar vocações’’.
O pianista trabalha com a integração de som e imagem. Durante as apresentações são projetadas em telão imagens de esculturas, paisagens, além de leitura de poemas. ‘‘A idéia é ensinar para as crianças que as linguagens das artes têm como objeto as emoções e as vivências da alma’’, afirma.
Após o recital é feita uma experiência grafoplástica onde os ouvintes produzem algo - um desenho, uma pintura, uma poesia - relacionado ao recital. Nestes quatro anos mais de três mil crianças assistiram aos recitais, voltados para alunos com idades entre 6 e 12 anos.
Estudos científicos, segundo Papaianni, comprovam que crianças que têm aulas adicionais de música apresentam um melhor desempenho nas outras disciplinas. Mas o principal para o pianista é o efeito psicológico que a música exerce. ‘‘Crianças que passam por algum tipo de violência, por exemplo, convertem seus sentimentos com relação a esta experiência em expressão artística e não em mais violência’’, explica.
• Recital de piano com Javier Papaianni - hoje, às 21 horas, no Sesc/Londrina, Rua Fernando de Noronha, 264. Entrada franca.

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