As biografias cinematográficas são consideradas roteiros não originais, não somente porque muitas vezes se baseiam em biografias já escritas e publicadas, mas também porque a vida que retratam determina de antemão um itinerário do qual não podem escapar. Assim, a missão mais complexa deste gênero de filme é conseguir modelar na tela a essência do personagem eleito, mais além da exatidão histórica. ‘‘Piaf - Hino ao Amor’’, em lançamento hoje em Londrina, consegue esta façanha, e por isto se converte em experiência tão emotiva e intensa como a música de Edith Piaf.
  ‘‘Piaf - Hino ao Amor’’ (o título original é La Môme/O Pardal, apelido carinhoso da cantora) é a biografia de Edith Piaf que o cinema oferece. Ainda que a imensa maioria dos espectadores desconheça a vida desta cantora, creio que a maioria, algum dia, ouviu o inconfundível estilo de suas canções. Com inteligência, o filme de Olivier Dahan se dedica a contar sua vida e a entregar uma bem escolhida seleção de seus sucessos, na medida certa para obter a emoção mais profunda.
  O filme busca reconstruir todo o universo que cercou a figura de Piaf durante sua vida, e as situações que a levaram a expressar em suas músicas a intensidade, a força e a tristeza que emana em cada letra, em cada palavra. Mas é necessário saber tudo isso de Edith Piaf para que sua música chegue ao público desta maneira? Obviamente a resposta é não, ainda que ambas as coisas juntas potencializem a emoção.
  Há que ser tolerante com as cinebiografias sempre e quando elas não traiam a realidade emocional ou moral do personagem biografado. E isto é precisamente o que faz este filme, já que é bastante fiel tanto sobre as verdades como sobre as mentiras que a própria Piaf construiu sobre si mesma. Ler uma boa biografia da cantora logo depois de ver o filme não vai trazer novas luzes sobre o que está na tela. E se por acaso se descobre que o que se assiste é pura lenda, então, como dizia o diretor John Ford, que se imprima a lenda, porque a vida dela foi tal e qual as músicas dizem.
  É mérito sim deste filme, pois se alguma coisa caracteriza esta superprodução é, paradoxalmente, sua humildade. Dahan sabe que o elemento relevante de fato é a cantora. Entretenimento humilde e sincero, ’’Piaf’’ é dedicado a uma mulher de ilimitada dimensão. Decidir fazer uma biografia e no percurso tentar evitar a emoção teria sido uma decisão mais que equivocada, imoral mesmo. E em decorrência desta escolha, ‘‘Piaf’’ coloca a platéia num carrossel de emoções viscerais, carregado de tristezas, penas, dores e perdas pessoais.
  Mas também de talento, força indomável, firmeza, fidelidades e grandes amores. Na tela está toda a arte de Edith Piaf, capaz de devolver ao espectador este velho prazer de ir ao cinema ver um filme em que acontecem transformações aos personagens e no qual a história pode ser seguida sem inconvenientes sonoros ou turbações da vista, fenômenos predominantes nos multiplex da vida.
  ‘‘Piaf’’ é um filme sólido, bem amarrado, com uma estrutura que por vezes parece confusa por conta de uma montagem não linear – mas esta não foi a vida interior, intensa e caótica da própria Piaf? Sobre os ombros da atriz Marion Cotillard o peso de uma tarefa gigantesca. Na maioria do tempo, ela entra em fusão com o personagem e a atuação passa despercebida. A moça compreendeu a idéia do filme e se entregou a um papel em que seu rosto deveria desaparecer por completo, assim como seus modos e seus gestos. Sacrifício plenamente recompensado.

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