PHILIP GLASS MOSTRA A TRILHA DE 'DRÁCULA'
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de agosto de 2001
Jotabê Medeiros<BR>Agência Estado 
Originalmente concebido sem trilha sonora, pelas impossibilidades técnicas do tempo em que foi produzido, o clássico filme de horror ''Drácula'', com Bela Lugosi, retorna com música a São Paulo após 70 anos.
O autor do feito é o compositor americano Philip Glass, que apresenta no País a trilha que compôs em 1999 para o filme, pela primeira vez. De quebra, mostra também a trilha que fez para outro clássico, ''A Bela e A Fera'', de Jean Cocteau, de 1946 (com Jean Marais e Josette Day).
Glass estréia no Teatro Municipal do Rio de Janeiro no dia 11 de setembro, chegando à Sala São Paulo nos dias 16 e 17. Depois, vai ao Teatro do Sesi de Porto Alegre, no dia 19.
Dono de uma indicação para o Oscar pela trilha de ''Kundun'', de Martin Scorsese, Philip Glass compôs e gravou a trilha de ''Drácula'' a pedido dos estúdios Universal. A gravação original, da Nonesuch Records, tem o Kronos Quartet na execução musical. Foi a segunda colaboração de Glass e do Kronos. A primeira foi em 1985, para o filme ''Mishima'', de Paul Schrader.
Leia a seguir terchos da entrevista com Philip Glass.
Qual a diferença entre tocar ''Drácula'' com o Kronos Quartet e com o Philip Glass Ensemble?
É uma boa questão. Nenhum músico toca da mesma maneira, e as características das músicas mudam. O Kronos Quartet é um quarteto de cordas e tem uma abordagem lírica da trilha. O Ensemble trabalha com sintetizadores, e é uma boa oportunidade para seus músicos darem uma nova leitura para os performers. É muito diferente uma coisa da outra, mas eu gosto de ambas as perspectivas. Algumas coisas vão melhor com o Kronos, outras, com o Ensemble. Depois, seria muito difícil excursionar com o Kronos, porque eles têm pouca disponibilidade.
Soube que o senhor poderia ter escolhido entre ''A Múmia'', ''Frankenstein'' e ''Drácula'' para fazer a trilha. Por que escolheu ''Drácula''?
Sou muito próximo de ''Frankenstein'' também. Acho ''A Múmia'' menos interessante. Se pudesse escolher, teria ficado com os dois, ''Drácula'' e ''Frankenstein''. Mas só podia um. Escolhi muito pelo ator, Bela Lugosi. É impressionante, sua interpretação. Ele quase não fala. Expressa-se muito mais com os olhos. Entendeu como raros atores poderiam entender o que o personagem pedia e acho que não há ninguém como ele. Se fosse fazer uma trilha para Frankenstein, acho que teria optado por uma outra voz, mais gutural, menos humana.
O senhor parece preferir especialmente o filme de Todd Browning. Não gosta de ''Nosferatu'', de Murnau?
É muito belo também. Mas é mais sério. O ''Drácula'' de Todd Browning é mais popular, as pessoas conhecem muitos dos diálogos. Ao mesmo tempo, possibilita o contraste certo entre luz e sombra para criar a tensão e a dinâmica da música do filme.
Quando o senhor viu Drácula pela primeira vez?
Foi há 35, 40 anos. Estava indo para a universidade, em Chicago. Um cinema estava passando um ciclo de filmes clássicos. Pensando bem, acho que foi há 47 anos. Eu nunca imaginei que um dia faria a trilha daquele filme.
Qual é o segredo em combinar músicas e imagens na trilha de um filme?
Esse é o ponto principal. Imagem é movimento. Palavras são música. Você usa essa composição na ópera, no teatro. No filme, as palavras são parte da narrativa. Há uma simbiose com a música. Quando você vê um filme, nunca mais vê nada daquilo separadamente. Minha concepção de uma trilha sonora é tratar a música mais como uma performance, uma coisa em tempo real. É uma poderosa combinação e requer certa vitalidade.
Mas no filme ''Koyaanisqatsi'', de Goffrey Reggio, sua música não sublinha uma história.
É verdade, não é uma história. Mas, de qualquer jeito, há uma dinâmica entre música e imagem. Eu procuro essa dinâmica mesmo em filmes curtos, como os que fiz com Peter Greenaway, Atom Egoyan. São narrativas rápidas e, com as trilhas, busco desenvolver o gosto da audiência para a música ao vivo de filmes.
Por que o sehor acha que ''Drácula'' exerce tanto fascínio até hoje?
É uma história do século 19 que preserva um mistério insolúvel, assim como ''Jack, o Estripador''. Há elementos de fascinação, como um tácito acordo com o Demônio, que é exatamente o que acontece com ''Drácula''. E é uma história romântica, com o vampiro eternamente em busca da mulher ideal, da impossibilidade de aceitar a morte, da vida eterna. ''Drácula'' se equipara a outros personagens, como Gilgamesh e Parsifal. Bram Stocker pôs em cena aquilo que se passava nas mentes das pessoas do século 19: o mal absoluto, o ideal de pureza, o erotismo. Uma das coisas que mais me chamam atenção é a ausência de violência explícita. Não se vê o sangue, não há agressão, mas apenas um temor enorme.
E qual a diferença de sua composição para ''Drácula'' e para ''A Bela e A Fera''?
Para ''A Bela e A Fera'' eliminei a trilha sonora e compus uma ópera, é essa basicamente a diferença. Não escrevi algo experimental, modernístico, cheio de eletrônica, porque o que vamos ver são filmes de outro tempo. Quero que as pessoas vejam o filme sem que a trilha se sobreponha a ele, mas que seja complementar à sua narrativa.
O senhor tem diversas colaborações com artistas brasileiros, como o Grupo Corpo e Gerald Thomas (na ópera ''Matogrosso''). Está pensando em algum novo trabalho com brasileiros?
Para mim, é sempre possível, porque tenho muito interesse na cultura brasileira. Mas atualmente tenho trabalhado em muitos projetos, como uma sequência de ''Powaaqatsi'' e um composição sobre o trabalho de Allen Ginsberg.
Dizem que o senhor é o compositor mais ocupado do mundo.
(Risadas) Não tenho muito tempo para férias, penso em música o tempo todo. Essa é minha filosofia. Mas agora, no Brasil, entre as apresentações, terei tempo para ver amigos, conversar, trocar idéias. O que também não são férias, mas parte do desenvolvimento da música.


