PHILIP GLASS ABRE O JOGO
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de julho de 2001
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
O programa Sarabanda, produção do Canal Paraná que vai ao ar hoje, à meia-noite, em rede estadual pela Rede Paraná, trará uma entrevista exclusiva com o compositor minimalista Philip Glass. Acredita-se que esta seja a primeira vez que ele esteja falando para uma equipe de televisão do Brasil. O detentor da façanha é o também músico (toca flauta na Orquestra Sinfônica do Paraná) Sebastião Interlandi Júnior, criador e apresentador de Sarabanda.
Famoso em todo o mundo, principalmente pelas trilhas sonoras dos filmes Koyanisqatsi e Powasqatsi Philip Glass recebeu Interlandi em sua casa, no mês passado, em Nova York. A conversa entre eles foi tão boa que irá ao ar na íntegra, dividida em dois programas. Os interessados na entrevista que acham o horário da meia-noite muito ingrato, poderão sintonizar Sarabanda na reprise que passa aos sábados, às 13h30.
Interessado pela música minimalista e trilhas sonoras para cinema, Interlandi Júnior encontrou no artista um interlocutor à altura. Minha primeira pergunta a ele foi: qual a diferença entre compor para cinema e compor para se tocar no palco?. Como resposta, recebeu uma explicação detalhada do processo de composição de Glass para cinema.
Além disso, ouviu do norte-americano elogios ao Brasil e suas afinidades com o País. Glass é amigo de Caetano Veloso, que o visita quando viaja a Nova York, já esteve várias vezes aqui, trabalha com o grupo instrumental mineiro Uakti (que estará em Curitiba em agosto) e também já trabalhou com a cineasta carioca Monique Gardenberg. A simpatia dele foi tanta que se quiséssemos, ficaríamos a tarde inteira entrevistando-o, comenta o músico.
O flautista da OSP teve boa desenvoltura no contato com o compositor, mas rejeita qualquer proximidade desse trabalho com aspectos jornalísticos. Não me atreveria a dizer que tenho um lado jornalístico. Estou de pára-quedista nessa história, desconversa.
Sou movido pelo prazer de conversar sobre música, é a sua explicação por se sair bem no papel de apresentador. Aliás, uma das propostas de Sarabanda era de que o espaço fosse ocupado por músicos, e não por jornalistas ou profissionais da TV. Achei que ia dar mais autenticidade, e realmente deu.
Com pouco mais de dois meses no ar, Sarabanda vem marcando seu espaço na rede. O programa criado por Interlandi Júnior com participação de Analaura Souza Pinto, pianista da OSP, responsável pela apresentação e pesquisas , realizado pela produtora Net Films, nasceu para ser uma revista voltada à música erudita.
Ou seja, dentro de um formato diverso do Concertos TVE, que havia até então. A meu ver era muito mal aproveitado porque não cumpria nenhuma função televisiva. Apenas mostrava os concertos da Sinfônica do Paraná, critica.
A seu ver era preciso ir além da sala de espetáculo. A partir disso bolei um projeto que englobasse também entrevistas com personalidades e músicos notáveis. Acrescentou ainda um passeio pelos bastidores, com as câmeras registrando os ensaios, e um quadro onde os músicos contam porque escolheram seus instrumentos. As respostas, algumas vezes, chegam às raias do surrealismo. Por fim, tem-se o concerto.
Ir além das cortinas e mostrar ao público que a construção de um espetáculo exige ensaios, dedicação e suor, é uma das curiosidades do Sarabanda. A maioria do público imagina que a vida do músico é aquele glamour visto das poltronas do teatro. Claro que não, mas ainda hoje têm programas que firmam esse conceito quando o assunto é a música clássica.
Interlandi cita como exemplo uma produção da TV Cultura que começava com o maestro Diogo Pacheco descendo a escadaria do Teatro Municipal de São Paulo. À pomposidade do cenário, acrescentava o texto com informações distantes da realidade brasileira. Pego por aí: não uso smoking, não vou ao Teatro Municipal e tento colocar meu texto numa linguagem honesta, acessível a todos. Sem elitismo, afirma o moço.
Da mesma forma como busca a simplicidade, também não aceita a tese de que música sinfônica seja arte das elites. Isso é conversa furada. A música, seja ela qual for, é acessível a todos. Para provar aquilo que diz, coloca no ar repertórios da OSP sem se preocupar em conquistar o público pela facilidade das peças. O interesse maior tanto dele quanto da colega Analaura, que o auxilia na escolha é o fascínio despertado pelos compositores.
Na verdade tento divulgar a música com toda sua sofisticação. Não quero popularizar, esvaziando a bagagem erudita que ela contém. O que tento passar no programa é justamente esse meu fascínio por autores, como Beethoven, por exemplo. Acho que por aí eu pego todo mundo. E não pela erudição, afirma. Quero justamente popularizar a sofisticação. Pode ser um paradoxo, mas o que quero é a sofisticação para todo mundo: caviar, e não pão com mortadela.
Sarabanda, revista de música sinfônica produzida pelo Canal Paraná, traz entrevista exclusiva com o compositor minimalista Philip Glass. Apresentação de Sebastião Interlandi Júnior e Analaura Souza Pinto. Hoje, à meia-noite com reprise no dia 14, às 13h30, pela Rede Canal Paraná.


