A busca pelo entendimento não pode ser encarado como um caminho reto, linear e bem pavimentado. Na maioria das vezes, trata-se de um caminho repleto de pedregulhos, curvas, bifurcações e encruzilhadas.

Para o escritor austríaco Peter Handke o entendimento, antes de tudo, passa pela confusão. O entendimento, naturalmente, nasceria do estado de desordem. Handke expressa essa ideia em dois livros que acabam de ser lançados pela editora Estação Liberdade: “Ensaio Sobre a Jukebox” e “Ensaio Sobre o Louco por Cogumelos”.

Ganhador do Nobel de Literatura de 2019, Peter Handke coloca em prática, nas duas obras ficcionais, o conceito de digressão narrativa para criar uma atmosfera sobre determinado tema. Não se trata de apenas de divagação ou devaneio, mas de sempre sair do rumo para sempre retornar a ele.

Imagem ilustrativa da imagem Peter Handke apresenta a literatura como processo, não como finalidade
| Foto: Divulgação

Em “Ensaio Sobre a Jukebox” o narrador percorre o interior da Espanha procurando o melhor lugar para sentar e escrever um livro sobre as jukebox. Toda a narrativa abarca o processo de escritura em si, não a conclusão da escrita.

Em “Ensaio Sobre o Louco por Cogumelos”, o narrador se propõe a contar a história de um amigo próximo que, desde a infância, perambula pelos bosques coletando cogumelos comestíveis. O narrador flerta com a possibilidade que o personagem pode representar o próprio narrador.

As duas obras trabalham com a narrativa que faz uso da digressão enquanto processo literário, enquanto linguagem. A partir de coisas aparentemente banais, como jukeboxs e cogumelos, o autor faz da literatura um meio, não um fim. Um processo, não uma finalidade.

Um dos nomes da literatura contemporâneos de língua alemã, Handke escreveu vários roteiros para o cineasta alemão Wim Wenders, entre eles “A Angustia do Goleiro na Hora do Pênalti” (1972) e “Asas do Desejo” (1987). Possui vários livros publicados no Brasil, entre eles “A Mulher Canhota e Breve Carta Para um Longo Adeus” (Brasiliense, 1985), “A Repetição” (Rocco, 1988), “A Ausência” (Rocco 1989), “História de uma Infância” (Cia. Das Letras, 1990), “A Tarde de um Escritor” (Rocco, 1993), “Don Juan” (Estação Liberdade, 2007) e “A Perda da Imagem ou Através da Sierra de Grelos” (Estação Liberdade, 2009).

Em 2015, numa entrevista, Handke afirmou que o prêmio Nobel de Literatura deveria ser extinto. Em suas palavras, o Nobel representava uma “falsa canonização”. Ao receber o prêmio em 2019, procurou minimizar as coisas com a seguinte explicação: “Quando critiquei o prêmio Nobel, não falava como autor, e sim como leitor. Minha existência consiste em ler. Sinto-me em meu lugar quando começo a ler, a decifrar, a encontrar as palavras”.

Nascido em 1942, de mãe eslovena e pai austríaco, Handke tomou várias posturas em defesa da Sérvia durante a Guerra da Bósnia e Herzegovina na década de 1990. Batalha que representou a dissolução da Iugoslávia. Vários escritores europeus o acusaram de “defender crimes de guerra”. Uma questão mal resolvida até os dias de hoje.

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. | Foto: Reprodução
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Serviço:

“Ensaio Sobre a Jukebox”

Autor – Peter Handke

Editora – Estação Liberdade

Tradução – Luiz S. Krausz

Páginas – 122

Quanto – R$ 38

“Ensaio Sobre o Louco por Cogumelos”

Autor – Peter Handke

Editora – Estação Liberdade

Tradução – Augusto Rodrigues

Páginas – 160

Quanto – R$ 48

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