Pessoas e pessoas de um certo Fernando
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de janeiro de 1999
Antônio Mariano Júnior 
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Ofélia: um grande amor de Fernando Pessoa, um corpinho de tentação
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Fernando Pessoa, fotografado em 1929, bebendo no Abel Pereira da Fonseca
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O poeta fez o mapa astral de Alberto Caeiro, seu heterônimo preferido
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Ao morrer, Fernando Pessoa pediu: Dá-me os óculos
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Fernando Pessoa aos dois anos e meio de idade
Viveu cerca de 17 mil dias. Num desses dias, aos 28 anos de idade, anunciou entusiasmado a um amigo: Vou fazer uma grande alteração na minha vida: vou tirar o acento circunflexo do meu apelido (sobrenome). Livrara-se, pois, do peso total do nome de batismo, Fernando António Nogueira Pessôa, para raspar e moldar dentro de si, tresloucada e marginalmente, a verdadeira identidade de um sujeito que, por querer próprio, passaria ser chamado só e unicamente de Fernando Pessoa. Esse sujeito, essa figura de linguagem multifacetada que fez e desfez-se em seres fictícios que conversavam entre si. Como numa metalinguagem atroz e viciada, o poeta, antes de se projetar um fingidor, era um autófago. Uma lâmina literária oxidável e, portanto, merecedora sempre de linhas e mais linhas afoitas por restaurá-la o mais fielmente possível.
Saibam: outra pessoa se dispôs a esmiuçar as máscaras apegadas à cara de Fernando. Mais que isso: propôs-se dissecar vida e obra, mesmo que isso rendessem certas linhas detalhadamente chatas (mas não irrelevantes) do poeta, cujos restos mortais repousam com pompas de heróis no mosteiro dos Jerônimos ao lado dos ossos de Vasco da Gama e Camões. Trata-se do francês Robert Bréchon, incensado especialista da obra pessoana cujo seu Estranho Estrangeiro - uma Biografia (Record) foi vertida há poucos dias para o português.
O livro é um catatau. Quinhentas e tantas páginas. Como toda biografia, atém-se basicamente a fatos cronológicos. Traz curiosidades, vasculha particularidades nunca dantes navegadas ou pouco sabidas, alimenta e/ou oferta pão e água somente a lascas da mitologia que cerca Fernando Pessoa. Narrativa seca. Que pode levar o leitor, se pestanejar, a fazer de Estranho Estrangeiro um alto e duro travesseiro.
Bréchon informa o que tem que ser informado mas também trata fatos ou nuances temáticas com visão crítica . Por isso, antes de ser uma biografia Estranho Estrangeiro é, sobretudo, uma quilométrica porém consistente resenha literária. Dá vontade de pular alguns trechos? Claro que dá.
Mas não é recomendável: Bréchon amarra tão bem os fatos (os 33 capítulos são divididos por datas - do nascimento à morte) que quem incorrer nessa ânsia compreensível terá que forçosamente recorrer às páginas desdenhadas para formar, entender e/ou estabelecer fatos e fatores cronológicos ou mitologicamente preponderantes.
Prolixo ou não, Brechón traz à tona um rico inventário de Pessoa e suas pessoas. Com ares de falsa modéstia e humildade afirma enfático: Podem-se fazer várias leituras de uma vida como de uma obra; nenhuma detém a verdade absoluta. Não creiam nisso! Brechón muitas vezes passa a impressão de ter toda a autoridade do mundo para informar fatos e também destilar impressões pessoais.
Admite ele que em se tratando de biografia de Fernando Pessoa, só teve dois predecessores: o espanhol Ángel Crespo (A Vida Plural de Fernando Pessoa, de 88) e João Gaspar Simões que em 1950 publicou Vida e Obra de Fernando Pessoa - História de Uma Geração. De leve, dá uma esnobada daquelas no relançamento Fernando Pessoa - Uma Fotobiografia (Civilização Brasileira), de Maria José de Lancastre, o qual ele classifica de um fotorromance que se limita a breves legendas e citações de suas obras.
Não creiam nisso também! Uma Fotobiografia tem sua importância por trazer um material iconográfico interessantíssimo de Pessoa e afins e outros nem tanto. Que pode e deve ser lido ou visto, como queiram, enquanto se descansa um pouco da árdua tarefa de se ler as milhares de páginas de Estranho Estrangeiro.
Futricas à parte, o bom mesmo é saber de Fernando Pessoa, nascido em 13 de junho de 1888, às 15h20. E nisso Brechón não mediu esforços e linhas para dissecar o poeta que foi alfabetizado aos quatro anos por sua mãe, Dona Maria Madalena. Foi ela quem acabou despertando a veia poética do pequeno Pessoa - através da quadra A Minha Querida Mamã, escrita aos sete anos.
É que Madalena, já casada por procuração, teria que ir a Durban, colônia inglesa na África do Sul, ao encontro do novo marido (o pai de Fernando morrera quando ele tinha cinco anos), nomeado cônsul de Portugal naquele fim de mundo. O marido achava melhor confiar a guarda do menino a uma tia. A esposa não. Dilema instaurado, a resposta do filhinho: Ó terras de Portugal/ Ó terras onde nasci/Por muito que goste delas/ inda gosto mais de ti.
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever minha biografia, Não há nada de mais simples. Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra cousa todos os dias são meus (Alberto Caeiro)Mãe e filho partiriam, no dia 6 de julho de 1896, à Africa do Sul. Trinta dias de viagem. Navio. Lá o poeta vive em dois períodos - de 1896 a 1901, onde recebe uma maior alfabetização, em inglês - e o retorno, em 1902 quando ficaria por três anos. A partir de 1905, a volta a Lisboa de onde não tiraria nunca mais seus pés.
Até 1908, só escrevia em inglês, através de suas máscaras literárias - os heterônimos Charles Robert Anon e principalmente Alexandre Search. Aliás, teria sido Search o precurssor ou a crisálida dos três mais conhecidos heterônimos: Alberto Caeiro (a quem Fernando considerava seu grande mestre), Ricardo Reis e Álvaro de Campos. O primeiro heterônimo, Chevalier de Pas, nascera aos seis anos. A pátria só seria sua língua de fato, e mesmo assim sem evocar lugares, coisa, tradições de Lisboa, em 1908. Tais observações ou sensações só viriam arrepiá-lo em 1913.
Estranho Estrangeiro, mostra também a faceta política de Pessoa (a quem, inicialmente, atribuiam-lhe erroneamente simpatia monárquica); a formação intelectual (sua admiração, por Baudelaire, Shakespeare e o desgosto por Corneille, Racine e Nietzsche, só para citar alguns); suas ousadias literárias (a publicação da revista Orpheu, um dos marcos do modernismo português mas um fiasco em termos de aceitação); o lado místico (chegou a querer abrir um escritório de astrologia e grafologia, embora fosse também curioso pesquisador de numerologia e até espiritismo); e até mesmo o lado Professor Pardal (inventou um novo tipo de máquina de escrever e chegou a propor uma reforma ortográfica).
Mesmo tratado com seriedade por Brechón, a vida íntima de Fernando dá margens a suposições mexeriqueiras - sua grande amizade com Mário de Sá-Carneiro (ambos com inconstetáveis traços de homossexualismo, mas nada que fosse avassalador como Verlaine e Rimbaud; era simplesmente uma união intelectual); e seu grande, discreto, confuso e misterioso amor por Ofélia Queiróz (a Ophelinha, corpinho de tentação).
A morte sugou o poeta exatamente às 20h30, do dia 30 de novembro de 1935, aos 47 anos, no Hospital São Luís dos Franceses. A causa; cólicas hepáticas. Cirrose hepática em outras palavras. Há controvérsias sobre o diagnóstico. Sessenta anos depois da causa mortis , dois importantes médicos portugueses, Francisco Manuel da Fonseca e Irineu Cruz , põem morro abaixo a causa mortis provocada pelo consumo excessivo de álcool.
Fonseca publicou O Hábito de Beber no Contexto Existencial e Poético de Fernando Pessoa. Segundo ele, o poeta teria sido acometido de um acidente clínico, uma pancreatite aguda devida a litíase da vesícula biliar. Cruz levantou num congresso, em junho de 1995, a hipótese de uma hepatite B ou C, adquirida durante a infância, na África do Sul, que teria ficado incubada por mais de 30 anos.
Enfim, o poeta morreu. Dá-me os óculos teriam sido suas últimas palavras. O que queria ver melhor não se sabe. Não se sabe! Sua obra, entretanto, lateja, amarfanha mesmices de tão viva que ainda está. Um certo Álvaro, uma pessoa em nome do criador, poderia escrever como epitáfio: Como um deus, não arrumei nem a verdade nem a vida. Suposição, senhores, oxidável suposição...


