Rio, 13 (AE) - O painel "A Lenda da Salamanca do Jarau", de Iberê Camargo, pintado em 1965, quando ele começava a ser conhecido, numa técnica abandonada pouco depois, passou anos esquecido num auditório do Sindicato dos Corretores de Seguros do Rio (Sincor-RJ) e só recentemente foi redescoberto e exposto ao público. A descoberta deve-se à pesquisadora de arte Maria Cristina Burlamaqui, que foi curadora da exposição sobre o artista que se encerra hoje no Paço da Cidade. Mas nem ela nem os sindicalistas sabem explicar direito como o quadro foi parar lá.
Segundo o vice-presidente do Sincor-RJ, Amilcar Vianna, o quadro deve ter sido encomenda de um antigo presidente ou diretor da entidade, provavelmente amigo de Iberê Camargo. Avisando que não é especialista no assunto, ele acha que a obra, pintada em fórmica e medindo 1,8 m x 4 m, é uma alegoria à profissão que o sindicato representa. "Para nós, a alusão é clara", garante Vianna. "O pássaro, que os gaúchos chamam de téu-téu, mas é um quero-quero para nós, protege o animais salvos do dilúvio, da mesma forma que os corretores de seguro cuidam das pessoas que passaram por uma catástrofe".
Maria Cristina Burlamaqui não desmente nem confirma essa hipótese, mas prefere falar sobre a técnica empregada por Iberê. "Na época, ele era amigo da família proprietária da fábrica Formiplac e fez várias experiências pintando em fórmica", conta ela. "Nesse quadro, ele usou um papel especial que depois recebeu o verniz e o suporte, mas a técnica de pinceladas grandes, vigorosas e gestuais está inteira lá". Segundo a pesquisadora, que conheceu pessoalmente o pintor e hoje é curadora de sua obra, nesse período Iberê Camargo estava ligado ao cubismo, mas ainda não tinha a temática sombria que marcaria sua obra nos anos 70 e 80, até sua morte, em 1994.
"Ele ainda estava muito influenciado pela cultura do Rio Grande do Sul, que mistura influências espanholas, portuguesas e dos índios guaranis", explica. "O téu-téu, por exemplo, é considerado um pássaro protetor do gado nos pastos e por isso ele aparece na mesma situação com os animais depois do dilúvio". Ela diz ainda que a técnica usada foi fazer uma aguada (base da pintura) em azul e depois pintar cada um dos elementos do quadro sobre aquele fundo. "Quem teve oportunidade de ver o Iberê pintando sabe que ele fazia e refazia os quadros, mas nesse, em razão do suporte, essa técnica não era possível", ressalta ela. "Mas sua gestualidade pictórica está lá, integral
para quem quiser ver".
Após a exposição, o quadro volta ao Sincor-RJ, mas para um lugar mais nobre. "Antes não tínhamos idéia de seu valor e por isso ele ficou anos sem restauração e num lugar em que poucas pessoas podiam vê-lo", diz Vianna, garantindo que nem passa pela cabeça da diretoria vender a obra, mesmo sendo valorizada, e prometendo colocar o painel no saguão no prédio onde funciona o sindicato. E ele acha que esse não é o único tesouro guardado pela entidade. "Vários presidentes ou diretores trouxeram obras de arte para cá", conta. "Temos, por exemplo, uma santa e um crucifixo barrocos, cujo valor não sabemos, mas estamos querendo que alguém os avalie". Com a palavra, os especialistas.

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