São Paulo, 21 (AE) - A história do pintor José Ferraz de Almeida Júnior (1850-1899), homenageado a partir do dia 25 com uma exposição na Pinacoteca do Estado ( a mostra "Almeida Júnior Revisitado" reúne 10 telas do artista) não é apenas a de um artista que retratou um Brasil até então ignorado por seus contemporâneos, um Brasil de caipiras picando fumo e pés no chão. O pintor de Itu, cujo sesquicentenário de nascimento será comemorado em 8 de maio, foi principalmente uma das maiores vítimas dos historiadores positivistas, que inventaram fatos e personagens para tornar mais romântico e trágico o caso amoroso com sua prima Maria Laura do Amaral Gurgel. Escrevendo em direção contrária, o jornalista Oséas Singh Júnior, pesquisador e coordenador do Projeto Almeida Júnior, vai lançar em maio o romance biográfico "O Tempo Cobrindo a Beleza" e um CD-ROM com dados biográficos e documentos sobre o pintor.
O livro ainda não foi concluído. Singh Júnior, que mora em Campinas, pesquisa a vida e obra do pintor há seis anos. Diz, como pesquisador ligado à nova historiografia francesa, que essa pesquisa liga-se a outras disciplinas (sociologia, antropologia, informática) em busca de uma visão caleidoscópica sobre a vida do pintor, marcada na infância pela pobreza na zona rural e, na idade madura, pela produção de obras que revelam sentimento de culpa em relação à família - especialmente por sua conduta não convencional para os padrões da época. Singh garante que, sendo o primeiro pesquisador a percorrer toda a trajetória do artista, de Itu a Paris, passando por São Paulo e Rio de Janeiro, não deu ouvidos à história oral.
Em Itu, o imaginário popular costuma inventar mais amantes do que suportaria a cama de Almeida Júnior. Singh preferiu correr atrás de documentos oficiais e cartas para cruzar informações, enfrentando uma árdua batalha contra as falsificações. O mercado está cheio delas, segundo o biógrafo, o que dificultou ainda mais sua tarefa de separar verdades e mentiras sobre seu biografado, apunhalado pelas costas em 13 de novembro de 1899 por seu primo José de Almeida Sampaio, que descobriu na casa do pintor comprometedoras cartas de amor enviadas pela mulher Maria Laura a Almeida Júnior. Singh defende que "a endogamia torna o triângulo amoroso rico por si, dispensando recheios lúbricos", mas o que leu de absurdos sobre o caso daria para escrever outro livro. Um desses produtos de imaginação fértil foi publicado há 60 anos por Pelágio Lobo.
Noiva menina - Em seu ensaio biográfico, Lobo escreve que o tio do pintor teria imposto como condição de "noivado" com Maria Laura que Almeida Júnior permanecesse no Brasil, recusando a bolsa que o imperador D. Pedro II lhe concedera para Paris. Oséas Singh foi pesquisar e descobriu que Maria Laura tinha entre 4 e 5 anos quando o pintor partiu para a Europa, em 1876. Ela nunca foi noiva de Almeida Júnior. A tela "A Noiva" (1896) a retrata, segundo o biógrafo, no dia do casamento com outro primo, José de Almeida Sampaio, o assassino do artista.
Segundo o biógrafo, Sampaio sabia do caso amoroso da mulher mesmo antes de descobrir as cartas na casa do primo, a quem devia dinheiro. Perseguido pelos credores, ele teria buscado refúgio na casa do pintor, em São Paulo, depois de um deles ter recusado proposta para parcelar a dívida de uma fazenda, que perdeu. É possível, segundo o biógrafo, que o assassino tivesse marcado o encontro fatídico com a mulher, em frente ao Hotel Central de Piracicaba, já com a intenção de matar Almeida Júnior.
Sampaio cometeu homicídio para lavar a honra ou por não suportar a humilhação de ter seu silêncio comprado pelo primo credor? Singh não arrisca uma opinião sobre o crime passional, mas diz que ele eclipsou, de certo modo, a obra do pintor. Equívocos - Até hoje os livros repetem o equívoco de que Maria Laura posou, por exemplo, para a tela "A Leitura" (1892), o que não é verdade, segundo Singh. "A modelo é Rita de Paula Ybarra, mãe do único filho que o pintor reconheceu em testamento", garante o pesquisador. "A mulher, pela posição na cadeira, está grávida, segundo um médico veterano da Unicamp", observa. Ele afirma ter comprovado em documentos que, seis meses após a pintura do quadro, nasceu Mário José Ferraz de Almeida, filho da modelo Rita com o pintor. Ela também seria a modelo da alegoria A Pintura.
"Eu e o Ricardo Molina, da Unicamp, estamos cruzando fotografias com as telas para identificar, por meio do computador, as personagens de cada pintura", revela. Além de ter identificado as telas que adotaram como modelo iaiá Rita, Singh decobriu que Almeida Júnior pintou seu primeiro mecenas, o padre Miguel Corrêa Pacheco, em sua tela "Partida da Monção" (1897). É ele quem abençoa os que vão partir. Essa tela, segundo o crítico Sérgio Milliet, revela como Almeida Júnior era apegado à realidade. Ele jamais seria um "místico despreocupado da realidade" como Puvis de Chavannes, segundo Milliet. Nunca dispensaria um modelo vivo. Realismo - Milliet, analisando a passagem de Almeida Júnior pela Escola de Belas Artes em Paris, observa que o pintor escapou da influência dos impressionistas e permaneceu dentro do ambiente dos românticos, citando o papel de Delacroix, Corot e Millet na elaboração de suas pinturas do período francês. O crítico brasileiro também faz uma acertada observação ao referir-se às telas religiosas de Almeida Júnior, resultantes mais de sua admiração pela pintura de caráter anedótico do que propriamente de um forte sentimento místico.
"É preciso lembrar que ele rejeita o impressionismo porque, sendo aluno de Cabanel, mantinha distância dos impressionistas, cauteloso diante do fato de ser o movimento motivo de chacota na imprensa e entre o público que frequentava as galerias", diz seu biógrafo. "Seus quadros religiosos estão ligados a fatos dramáticos de sua vida, como a morte da mãe, em 1880, quando ele pintou "Remorso de Judas" para expurgar a culpa por sua vida boêmia em Paris", observa, citando ainda o exemplo de "Fuga para O Egito", pintado um ano depois.

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