São Paulo, 02 (AE) - Quando criança, Amaury Correia de Araújo comprou um folheto no qual dois repórteres narravam como Corisco e Dadá haviam morrido. A partir dessa leitura, o menino passou a sentir uma enorme atração pelo universo do cangaço e seus personagens, principalmente Lampião. Durante 49 anos, ele se embrenhou pelo sertão para buscar novas informações e, principalmente, contestar muitas histórias que leu, durante anos, sobre o tema.
Assim, Araújo tornou-se um dos mais ferrenhos críticos da história oficial de Lampião e do cangaço. Segundo ele, muitas "mentiras e bobagens" foram escritas em trabalhos sobre o tema. Ele baseia suas críticas principalmente nas entrevistas feitas com cerca de 4 mil pessoas durante todo esse tempo, o que rendeu aproximadamente 170 horas de fitas gravadas.
Entre as "bobagens oficiais" que o pesquisador contesta está o número de vítimas de Lampião. Muitos livros garantem que ele teria matado pelo menos mil pessoas. Para Araújo, esse número gira em torno de cem. A violência de Lampião, diz, é muitas vezes exagerada ao extremo. "Diziam que ele levantava uma criança de colo na ponta da faca, mas até pessoas que o odiavam confirmavam que isso nunca ocorreu".
Araújo conta um caso que soube em suas andanças pelo sertão que mostra exatamente o contrário. Certa vez, dois cangaceiros foram mortos por membros da família Alves. Dias depois, Lampião e seu bando cercaram a casa e mataram sete pessoas. Segundo testemunhas, havia duas crianças no local, mas, ao invés de matá- las, o cangaceiro segurou-as num dos braços para poupá-las e, com o outro, ajudou a realizar a vingança.
Araújo não quer, porém, transformar Lampião em herói. Longe disso. "Não caio no ridículo de dizer que ele era um santo, mas quero que as pessoas entendam que o rumo que deu à sua vida não foi uma opção; ele foi levado a transformar-se num homem duro por várias razões". (R.S.)

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