PESQUISA Sinfonias ambientais
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domingo, 25 de janeiro de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
O escritor Domingos Pellegrini provocou algum alvoroço, anos atrás, ao criticar sistematicamente a ''poluição sonora'' que invadia o Calçadão de Londrina nas manhãs de sábado. Depois de esbravejar nos meios de comunicação, abandonou um apartamento localizado a poucos metros do local para viver numa chácara distante do centro da cidade.
A musicista, advogada e pesquisadora Regina Marcia Constantino, que mora no mesmo prédio já habitado pelo autor de ''Terra Vermelha'', também se incomoda com os ruídos indesejáveis vindos do trecho mais frequentado pelos pedestres na Avenida Paraná. Mas, ao analisar o impacto do som no meio ambiente para sua tese de Mestrado, descobriu ali uma inesperada ''sinfonia'' entre as vozes, buzinas, barulhos de carros, apitos de guardas e música disparada pelas lojas.
''Passei a andar pelo Calçadão de outra maneira'' diz ela. ''Já não ouço apenas a guerra sonora promovida pelas lojas, quando uma quer tocar músicas mais alto do que as outras. Descobri que qualquer pessoa que aguçar a percepção, será capaz de pinçar fragmentos curiosos de conversas, além de captar a riqueza timbrística proveniente de diversas fontes''. Em setembro do ano passado, Regina circulou durante alguns dias com um gravador pelo Calçadão com o objetivo de registrar a ''trilha sonora'' do local numa fita.
Com a colaboração do músico e compositor Guto Caminhoto, criou o que chama de um ''rondó ambiental eletroacústico contemporâneo''. Guto editou e mixou o material recolhido: vozes, canto de pássaros, veículos, telefones, alarmes, músicas, barulho oriundo do trabalho dos artesãos, flautas de músicos latino-americanos e até os sinos da Catedral. ''Os sinos não estão no Calçadão, mas seus sons se propagam até lá'' observa a pesquisadora.
Inspirada num estudo do jornalista, escritor e arqueólogo Bruce Chatwin, ela acredita que existam ''rastros sonoros'' (songlines) no Calçadão, pontos que marcam a memória dos lugares. ''O som da passarinhada do fim de tarde é comum a todos que possam ouví-lo'' salienta. ''Uma canção que um dia foi tocada por uma loja de discos, mesmo que nem o som nem a loja existam mais, pode ser re-ouvida na memória, ao passarmos pelo local, configurando uma songline interior, pessoal e intransferível''.
Sua dissertação acadêmica, intitulada ''Uma Ecologia para o Som Faces e Interfaces na Qualidade Acústica de Vida'', foi apresentada ao Curso de Mestrado em Geografia, Meio Ambiente e Desenvolvimento do Centro de Ciências Exatas da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A idéia central é analisar as causas e consequências do impacto sonoro no meio ambiente. ''As relações entre o ser humano, o som e o meio ambiente são antigas'' lembra ela, remontando aos livros sagrados, mitos e relatos de historiadores, filósofos, médicos e naturalistas.
''Há uma trilha sonora em cada passo do filme-humanidade'' enfatiza. ''A partir da revolução industrial, com o acréscimo progressivo de novos sons, houve uma grande transformação no perfil acústico do planeta. No século XX a diversificação e a potencialização do ambiente sônico aceleraram-se de uma forma inimaginável, e hoje, este é um tema que não pode mais ser ignorado dentro do contexto geral de meio ambiente''.
Regina acrescenta que a gama de sons disponíveis aumentou consideravelmente, até mesmo onde se supunha existir apenas o silêncio, como é o caso do fundo dos mares e o espaço sideral. ''Sob as águas dos oceanos há assobios, estalidos, grunhidos das várias espécies marinhas'' assinala. ''Presumia-se, até recentemente, que assim como os peixes as plantas também vivessem em silêncio. A estrectroscopia fotoacústica veio nos mostrar que embora não possamos ouví-los, há sons também no reino vegetal. Já no espaço sideral, os radiotelescópios acabaram com o mito do céu silencioso. Quando nosso poeta Olavo Bilac falou em ouvir estrelas estava sem dúvida antecipando poeticamente uma realidade''.
Segundo ela, a amplificação do universo sonoro toca os limites da audibilidade. A ciência, aliás, já os teria ultrapassado com aparelhos de ultra-som usados em Medicina. A transformação mais drástica, a que mais afetaria o meio ambiente, teria ocorrido na descarga de decibéis. ''A cidade é muito mais olhada e estudada em seu aspecto espacial, visual, mas nas últimas décadas do século XX os problemas sonoros impuseram sua presença, e não se pode mais ignorá-los por uma questão até mesmo de saúde pública'' argumenta.
Regina cita um estudo realizado por médicos na Bahia no qual foi constatado um elevado grau de surdez entre músicos de trios elétricos. Mais da metade de casos diagnosticados apresentava lesões graves nos tímpanos. Além dos óbvios danos auditivos, contudo, as mazelas provocadas pela poluição sonora empilham-se nas consultas hospitalares incluindo vítimas de distúrbios gástricos, cardiovasculares e de doenças de comportamento e do sono.
''A sociedade preocupa-se com a qualidade do ar e já aprendeu a reclamar de rios e oceanos poluídos'' ressalta. ''Mas com relação ao som excessivo, age como se ele fosse um subproduto natural do avanço tecnológico. Às vezes um som nos incomoda, e quando desligamos o aparelho que o está emitindo, dizemos: que alívio! No fundo, ainda não tomamos consciência do problema. Não queremos o silêncio absoluto, porque som é vida. Precisamos, no entanto, tomar consciência de que todo som tem sua hora e lugar''.
Durante a pesquisa, Regina incursionou por várias disciplinas para dar conta de sua investigação. Embora musicista, enveredou pela geografia, arquitetura, urbanismo e medicina. Defendeu a tese de Mestrado sob orientação da Profa. Yoshiya Nakagawara Ferreira.


