Para a psicanalista Leda Mariza Fischer Bernardino, que esteve em Lodrina sábado passado, a convite do ''Espaço Escuta'', para uma palestra que reuniu cerca de 250 profissionais das áreas de saúde e de educação no anfiteatro do Hospital Universitário, a alta incidência de distúrbios psíquicos na infância transformou o problema ''em uma questão de saúde pública''. Ainda não se apurou a média nacional dessa incidência, mas uma pesquisa recente, realizada em Salvador, revelou ''que há 26% de prevalência de transtornos mentais na infância'', o que dá uma boa pista sobre o tamanho do problema.
No processo de desenvolvimento individual, como explica a psicanalista,''não é mais possível separar a sobrevivência física da sobrevivência psíquica''. Num país como o nosso, no entanto, com tantas carências, ''a atenção primária acaba se concentrando na sobrevivência física''. Mas esse cenário deve se modificar. Há três anos, uma pesquisa em âmbito nacional, patrocinada pelo Ministério da Saúde e tendo como coordenadora executiva a Universidade de São Paulo (USP), vem estudando os chamados distúrbios globais do desenvolvimento, com o objetivo de definir formas de identificação precoce e de estimular uma rápida ação em termos de prevenção. Leda, que é a coordenadora da pesquisa em Curitiba, explica que, nesse sentido, o pediatra tem função fundamental, já que, pelo seu trabalho, ''está em condições de observar indícios de desarmonia na relação entre a mãe e seu bebê, por exemplo, que possam acarretar problemas ao psiquismo da criança''.
Numa fase inicial, basta às vezes uma simples orientação do pediatra para que a mãe reajuste seu comportamento psicológico em relação ao bebê. Outras vezes, será necessário o encaminhamento para um atendimento especializado. Contudo, em qualquer dos casos, o fundamental é que se obtenha um diagnóstico precoce, evitando, assim, a ocorrência de agravamentos ou de problemas mais sérios no futuro.
Na opinião da psicanalista, as dificuldades familiares que podem resultar em desajustes psíquicos nas crianças têm, nos dias de hoje, como causa mais comum ''o enfraquecimento de simbolismos, tais como palavras, valores, tradições, rituais de passagem, referências, que sempre estiveram presentes nas relações humanas''. Com um ''efeito extremamente perturbador'' na vida das pessoas, no entanto, as imagens vêm conquistando mais força do que os conteúdos. Assim, à medida que se dá mais ênfase à aparência do que a essência, como explica Leda, ''fica difícil encontrar sentido na vida, dar significação ao mundo''. Nesse contexto, a infância encaixa-se como a fase mais promissora para se descobrir as tendências de desajustes psíquicos e investir em sua superação.(A.S.)

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