Pesquisa avalia influência da TV
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quarta-feira, 27 de agosto de 1997
João Menoni Agência Brasil 
Paulo WolfgangContradição: jovens passam até 70 horas semanais diante da TV, mas não a incluem entre seus programas preferidosHá muitos anos os estudiosos se dividem sobre a influência que a televisão exerce sobre o comportamento humano. Para alguns, o equipamento eletroeletrônico de maior atrativo para as pessoas desempenha um papel negativo na formação comportamental se assistido por longos períodos de tempo. Entre as acusações está a de que a TV embota a capacidade de raciocínio e aniquila o senso crítico das pessoas. Os jovens seriam os mais suscetíveis a essa impressão.
Entretanto, uma pesquisa realizada pela psicóloga Leonor DAvila Brandão, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC), do Rio Grande do Sul, sobre O Adolescente e a Televisão - um receptor passivo ?, revelou que os adolescentes conseguem fazer uma leitura adequada da televisão. A recepção inicial da mensagem veiculada pela televisão não coincide com a apropriação dessa mensagem, afirma a psicóloga. Essa mensagem, de acordo com Leonor, envolve um processo contínuo de elaboração. O receptor (adolescente) não é passivo, ele tem suas próprias opiniões, conclusões e interpretações das mensagens distribuídas.
A televisão, por meio de uma análise sócio-histórica, foi tratada pela mídia impressa de uma forma negativa no sentido de exagerar sua influência. A Teoria da Comunicação, de acordo com a psicóloga, nos seus primórdios, também tinha essa visão. Ela lembra que até as revistas em quadrinhos, os gibis, sofreram rotulações de que seriam responsáveis pela transformação dos adolescentes em delinquentes. Hoje, nas teorias mais recentes, a televisão é vista de forma que o telespectador não é mero receptor passivo. Ele faz sua escolha e apropriação, ressalta a psicóloga.
GrupoForam entrevistados 30 adolescentes (15 de cada sexo) entre 13 e 17 anos, residentes em bairros de Porto Alegre, pertencentes a famílias de classe média baixa até classe média alta. Do total de entrevistados, 25 provêm de famílias onde algum dos conjuges possui nível de educação superior. A maioria dos pesquisados (18) estuda em escola particular e 12 em escola pública. Das famílias, 16 casais são unidos, 9 são separados, 4 estão no segundo casamento, havia uma viúva.
A pesquisa de Leonor Brandão constatou que a recepção não é um ato passivo e que cada adolescente capta aquilo que lhe convêm. A maioria deles percebe o quanto a TV os influencia, mas eles têm consciência crítica disso. Os adolescentes pesquisados discriminam o que assistem e têm noção do que é real ou não. Apenas adolescentes com algum problema orgânico, neurológico ou psicológico podem ter dificuldades em discriminar ao que assistem na televisão, afirma a psicóloga.
Os pesquisados gastam, em média, de duas a cinco horas diárias assistindo televisão. Semanalmente, as meninas ficam entre 9 e 48 horas vendo TV e, os meninos, entre 15 e 70 horas. A televisão, para os adolescentes (e não só para eles), parece ter seu espaço, ou lugar, estabelecido como o automóvel, o telefone e o computador. Parece difícil viver nossa época sem esses objetos ou voltar atrás, destaca Leonor. Além disso, os adolescentes responderam que a TV preenche o espaço vazio da rotina do dia-a-dia e que os acompanha como uma amiga sempre disponível.
A psicóloga salienta, ainda, a questão do tédio, da queixa atual do jovem de não ter nada para fazer e da solidão em que ele se encontra apesar dos muitos amigos, da família e da escola. Constatamos poucas opções de lazer para os adolescentes, ressalta ela.
OpçãoApesar de permanecerem muitas horas frente à TV, quando lhes foi perguntado sobre o que mais gostam de fazer, nenhum falou em assistir televisão. Em relação ao que menos gostam de fazer, 10 disseram que era estudar. Para a maioria (26), a TV é uma opção quando não há mais nada para fazer. Quando o programa não é do interesse deles, 23 trocam de canal e apenas 7 desligam o aparelho.
Os adolescentes, conforme Leonor Brandão, criticam seus familiares que assistem muita televisão e dizem que isso não é bom. Comentam que as pessoas que assistem TV em demasia são desvalorizadas (fracas e burras). Isto demonstra uma contradição, ou ambivalência, que é também uma característica dessa faixa etária, diz a psicóloga.
Com relação a programação, meninos sugerem que os programas deveriam abordar assuntos ligados às questões da adolescência. A maioria dos pesquisados acha que sempre aprende com a TV. Todos os adolescentes entrevistados não acreditam em tudo o que assistem, eles discernem a ficção da realidade.
Alguns adolescentes se sentem persuadidos pela TV, principalmente quanto ao aspecto de indução ao consumo, por meio do estímulo das propagandas e admitem alguma influência nas suas próprias emoções, afirma a psicóloga. Quanto ao sexo na TV, eles tecem muitas críticas e acham que o tema é exposto com exagero.


