Rio, 08 (AE) - A falta de produção audiovisual brasileira traz prejuízo não só cultural, mas também econômico. O País tem um déficit de US$ 600 milhões na balança de pagamentos em royalties da indústria de audiovisual, que abrange filmes, vídeos e programas de televisão. A situação tente a piorar e, para revertê-la, a única saída é aumentar a produção, sem dificultar a entrada de produtos estrangeiros. A tese é do Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica (Snic) e foi desenvolvida há cerca de um ano pelo primeiro-secretário da entidade, Leonardo Monteiro de Barros, com o apoio do Banco Central e ao Ministério da Cultura.
"Não existe essa rubrica nas contas do Governo e é preciso pesquisar itens específicos como número de ingressos de cinema vendidos e direito autorais pagos, na balança comercial e na de serviços, para chegar-se a números aproximados", explica Monteiro de Barros. "Mesmo assim, dá para saber que mandamos US$ 650 milhões para o exterior em royalties e recebemos US$ 50 milhões, dos quais US$ 35 milhões vêm de produções que TV Globo exporta." Segundo ele, o mercado audiovisual divide-se em quatro áreas: cinema, homevideo, televisão por assinatura e televisão aberta.
Com exceção da última, que fatura R$ 5 bilhões por ano, exclusivamente em publicidade, e produz 60% do que veicula, a produção brasileira perde feio para a estrangeira na geração de divisas. No cinema, por exemplo, que movimenta R$ 350 milhões em vendas de ingressos, apenas 5% vão para filmes nacionais. O restante vai para fora. Leia-se Estados Unidos, que dominam o mercado.
"É preciso levar em conta que, de cada ingresso, metade fica com o dono dos cinemas e o restante é dividido entre o produtor e o distribuidor, que só paga o produtor depois de abater a despesa com o lançamento", informa Monteiro de Barros.
No mercado de homevideo, que movimenta R$ 400 milhões anuais, a situação não difere muito, mesmo levando-se em conta que, além dos filmes, o gênero engloba também vídeos de auto-ajuda, institucionais e outros.
Perda dupla - Na TV por assinatura, a situação é mais complexa. O Brasil atualmente tem 2,5 milhões de assinantes que pagam, por ano, R$ 1,25 bilhão para ter cerca de cem canais à disposição. "Aí, temos duas situações distintas: existem os canais que já vêm prontos do exterior, como a BBC inglesa e a RAI italiana, e os canais brasileiros, como os da Globosat, que compram produção estrangeira porque a nacional é insuficiente", explica Monteiro de Barros. "Perde-se duas vezes, pois mesmo que o canal estrangeiro tenha pouca audiência, o assinante paga para tê-lo à disposição."
"Já pensou quando as distribuidoras de vídeo e filmes mandarem o sinal pela Internet ou pelo satélite em vez de vender fitas ou cópias de cada produção?", indaga Barros. "Para reverter essa situação, o Brasil terá de investir na produção audiovisual, como fazem os países europeus."
Lá os dados não são animadores, embora os governos da União Européia invistam pesado na produção local. "Segundo os dados do "The Economist", o europeus importam dos Estados Unidos US$ 6 bilhões e exportam US$ 2 bilhões", cita o secretário do Snic.
Em vez de aderir às lamentações da classe cinematográfica, o Snic vai à luta para propor soluções a médio prazo. "Estamos estudando as legislações que existem pelo mundo afora para sugerir mudanças nas nossas leis para a próxima década", conta Monteiro de Barros. Ele cita como exemplo a Espanha e a França, que obrigam as emissoras a investir em produção de ficção (filmes, novelas, minisséries) 5% do que arrecadam com publicidade.
Exemplo de fora - Leonardo Monteiro de Barros acha importante divulgar tais dados porque "o Ministério da Cultura já está sensibilizado para esse problema, mas a área econômica do Governo ainda não prestou atenção". "Mesmo levando em conta que a produção cultural é a primeira fonte de renda na Inglaterra e a segunda nos Estados Unidos, chegando juntinho com a indústria aeroespacial, que vem em primeiro lugar."
Para Monteiro de Barros, só com a divulgação desses números a equipe econômica pode sensibilizar-se para os problemas da produção audiovisual. "Se falarmos só de Antropologia, não seremos ouvidos."

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