O foco de investigação da pesquisadora Neide Munhoz Albano, porém, foi desvendar as inovações da escrita lobatiana garimpando os recursos estilísticos e linguísticos usados pelo autor para elaborar as mensagens enviadas pelo Correio. O recorte privilegiou os diminutivos, neologismos, estrangeirismos e a intertextualidade presentes nas cartas.
Ao analisar os diminutivos, Neide observou que o autor se valeu deles para ironizar e satirizar figuras e situações: ''Ele era especialista na arte de desnudar a realidade, de forma pejorativa, expondo sempre os problemas particulares e sociais em tom descontraído e brincalhão''. Ela acrescenta que Lobato recorria ao diminutivo também para expressar carinho e ternura.
Com relação aos neologismos, a professora examinou alguns exemplares para sublinhar a disposição sempre espirituosa do escritor, como quando criou a expressão ''Flaubertite'' fundindo o sufixo ''ite'' (característico da terminologia médica) a Flaubert (Gustave Flaubert, escritor francês) para tirar troça dos imitadores do estilo do autor de ''Madame Bovary''.
A pesquisa constatou também o gosto de Lobato pela incorporação de vocábulos de outros idiomas, o que desmontaria a imagem de nacionalista empedernido a ele atrelada. ''Os estrangeirismos presentes em seus textos vêm provar que parece não ter muito sentido a intenção de manter a língua portuguesa incólume, livre das influências alienígenas. As interpenetrações culturais parecem tornar vãs as tentativas dos gramáticos contra esse fato'' argumenta ela.
Completando a análise, Neide verificou que o efeito da intertextualidade recheia as missivas de Lobato, dotando-as de citações e fragmentos de textos dos mais diversos autores e épocas. O recurso, nota ela, requer conhecimentos prévios do leitor acerca do assunto em questão sob o risco das informações não serem compartilhadas.
Ela lembra que a leitura das cartas compiladas nos dois volumes de '' Barca de Gleyre'' foi acompanhada de pesquisa de campo. Em Taubaté (SP), conversou com amigos e parentes do mais ilustre cidadão nascido na cidade, além de visitar quase que semanalmente os museus e locais criados ou tombados como patrimônios históricos em homenagem ao escritor.
Viajou também a Pindamonhangaba (SP), onde Lobato editou seu primeiro jornal, ''O Minarete'', no qual escrevia ainda com pseudônimos. A dissertação, salienta ela, insere-se num contexto brasileiro de escassos estudos de epistolografia. ''Ainda é reduzido o número de pesquisas nessa área, embora se saiba hoje em dia que a leitura de cartas de escritores permita o esclarecimento da gênese de contos e romances, além do desvendamento de características idiossincráticas de grande poetas'' afirma, referindo-se neste último caso a uma carta do poeta português Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro na qual elucidaria a origem e a personalidade de cada um de seus famosos heterônimos.

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