PESQUISA - Arquitetura reciclada
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2006
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
O ímpeto de pôr abaixo tudo aquilo que aparentente é ''velho'' para dar lugar a uma construção moderna é questionado no trabalho de pesquisa de três jovens arquitetos de Londrina Elisa Zanon, 27 anos, Denise Lezo e Rodrigo Kamimura, ambos de 24 anos. O grupo concluiu duas pesquisas sobre a preservação do patrimônio histórico edificado de Londrina, no ano passado, que envolveram 14 construções antigas do Calçadão, e outras 15, em diversos pontos da cidade, que consideram bons exemplos de reaproveitamento, dentro do conceito arquitetônico de ''reciclagem de edificações''. O resultado pode ser consultado em duas publicações impressas que estão à disposição da comunidade na Diretoria do Patrimônio Histórico, na Secretaria Municipal de Cultura. A pesquisa de ''reciclagem'' também pode ser conferida no endereço eletrônico http://home.londrina.pr.gov.br/cultura/reciclagem. Para abril, os arquitetos organizam o lançamento de 500 CD-Roms. O novo material eletrônico trará informações sobre mais 12 edificações recicladas e pesquisadas por eles. O material será distribuído gratuitamente para profissionais da área.
E por que é tão importante pensar na preservação histórica de uma cidade? Com a resposta na ponta da língua, o grupo ressalta que o risco de uma cidade perder a própria identidade é grande quando a demolição passa a ser a única ferramenta considerada adequada no processo de modernização. ''As edificações fazem parte da memória da cidade, que passa a ser mais interessante quando tem sua história preservada'', ressaltou Denise Lezo. ''Como você sabe que está em Londrina ou em Recife?'', questionou o seu colega, Rodrigo Kamimura. ''São as características próprias de um lugar que o torna marcante para as pessoas'', acrescentou. ''Com o processo de globalização, as cidades estão ficando cada vez mais parecidas. Elas vão perdendo sua identidade, sua história local. A demolição desenfreada pode provocar uma crise de identidade'', alertou a arquiteta Elisa Zanon.
E foi com o objetivo de fomentar mais conscientização sobre o assunto que o trio de arquitetos decidiu desenvolver a pesquisa sobre preservação do patrimônio histórico, realizada com o apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). A idéia surgiu durante estágio que fizeram na Diretoria do Patrimônio Histórico de Londrina e veio de encontro à demanda do setor.
No primeiro trabalho de pesquisa intitulado ''Inventário de Edificações de Interesse Histórico-Calçadão'' , o grupo se dedicou a catalogar 14 edifícios do Calçadão. Foram elaboradas fichas de inventário com dados históricos sobre o prédio, fotos antigas e atualizadas, data da construção, planta simplificada, identificação dos responsáveis pela obra, entre outos dados. ''A ficha de inventário é o primeiro instrumento de preservação de um bem imóvel, que se não for tombado, terá pelo menos um registro oficial do prédio. É uma maneira de começar a falar que isso é importante'', destacou Denise.
A idéia inicial do grupo era somente elaborar as fichas técnicas de inventário, mas encontraram tantas informações interessantes que o material final acabou ganhando um apêndice histórico.
A segunda pesquisa ''Reciclagem e Preservação do Patrimônio Edificado'' contemplou o estudo de 15 edificações que podem ser consideradas bons exemplos de ''re-uso adaptativo'', isto é, prédios que foram adaptados ao uso moderno sem a necessidade de demolição. Entre eles, destacam a Biblioteca Pública, onde antes funcionava o Fórum de Londrina, a antiga rodoviária, hoje Museu de Arte e edificações comerciais e residenciais. ''É importante deixar público que demolir não é a única solução. Tanto a cultura quanto o empreendedor saem ganhando com o reaproveitamento'', comentou Kamimura. ''Entendemos que a cidade precisa crescer, mas não é necessário esquecer que a cidade teve história. Temos que ter uma posição equilibrada quando a isso'', reinterou.
Velhos barracões usados para o depósito de maquinários agrícolas que foram totalmente reaproveitados para abrigar uma boate e um restaurante na cidade e um restaurante que aproveitou dois apartamentos residenciais no piso superior para criar o seu buffet são exemplos bem-sucedidos de adaptação inteligente. ''É uma iniciativa válida e o nosso trabalho é uma forma de reconhecimento pelos proprietários e arquitetos que aderiram a isso'', disse.
O novo Plano Diretor de Londrina, que inclui o Plano Diretor de Preservação, ainda não foi aprovado, mas, caso isso ocorra todas as edificações que constam em foto área da cidade de 1949 deverão passar pela avaliação de uma equipe especializada para conseguir o alvará de demolição. A cada dez anos, cidades com mais de 20 mil habitantes precisam renovar o plano diretor. O prazo para Londrina definir o seu vence em outubro deste ano.


