PESQUISA - À caça de naufrágios
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de dezembro de 2004
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Um navio pirata francês, conhecido como Boloret, naufragou em Paranaguá carregado de objetos valiosos. O episódio aconteceu em 1718, mas só depois de mais de dois séculos a embarcação foi localizada e explorada por mergulhadores profissionais, ainda que com limitações atribuídas à tecnologia dos equipamentos da época. Hoje parte dos objetos resgatados podem ser encontrados em museus do Paraná e São Paulo, mas pouco se conhece sobre as condições do episódio. Para tentar preencher a lacuna dessas e de outras fabulosas histórias, uma equipe de pesquisadores está desenvolvendo o projeto ''Naufrágios do Paraná'', que mapeia os principais naufrágios que aconteceram no litoral do Estado.
O projeto prevê a realização de um longa-metragem, a publicação de um livro e uma exposição itinerante reunindo fotografias de época e atuais, além de mapas e documentos antigos que revelam importantes informações sobre as embarcações que afundaram no Litoral paranaense. Aprovados pela Lei Rouanet, a lei federal de incentivo à cultura, as propostas ainda estão em fase de captação, mas parte da pesquisa que vai dar origem ao documentário já está pronta.
''Existem pesquisas que mostram que aconteceram 11 mil naufrágios no Brasil, mas a marinha tem registrados no papel apenas mil e somente 600 deles foram localizados. Há um disparate muito grande entre o que existe e o que está documentado'', revela o coordenador do projeto Clécio Mendes. Ele conta que quando a equipe iniciou a pesquisa, há dois anos, já com a intenção de realizar o projeto, registros davam conta de 15 naufrágios no Paraná. ''Hoje já localizamos 52'', diz.
São histórias curiosas. Além do navio Boloret, a pesquisa revela como os canhões da fortaleza da Ilha do Mel foram utilizados pela primeira vez para afugentar uma das maiores embarcações que já cruzaram o litoral brasileiro, o navio inglês Cormorant, em 1850, ou sobre o vapor que encalhou em Guaratuba, que pertencia ao marido da compositora Chiquinha Gonzaga. O projeto aborda desde o primeiro naufrágio que aconteceu no litoral paranaense, em 1549, até um barco pesqueiro que afundou em setembro de 2003. Mas há chances ainda de incluir o navio chileno VicuÀa, que afundou no mês passado e ainda aguarda resgate.
O documentário realizado em película será dirigido pelo cineasta Genaro de Moraes e vai abordar três eixos narrativos. O ''Eixo Histórico'', com relatos de testemunhas e especialistas, imagens de mapas, ilustrações utilizando inclusive computação gráfica, o ''Eixo da Pesquisa'', que vai acompanhar o trabalho dos mergulhadores nos locais dos naufrágio e o ''Eixo da Vida Submarina'', que mostra como a natureza incorpora o resultado dos acidentes. ''Uma das nossas intenções com o projeto é alertar para a questão ambiental'', argumenta Mendes. O documentário está orçado em R$ 1,3 milhão e estão previstas três cópias em película.
Já o livro ''Naufráfio do Paraná'' tem tiragem prevista de 3 mil cópias. A publicação vai reunir as fotografias do projeto, além de documentos e reproduções de jornais e mapas antigos. A exposição, terceira parte do projeto, deve acompanhar um workshop sobre o assunto. Juntas, as duas propostas devem consumir verba de cerca de R$ 550 mil.
Enquanto os produtores aguardam a captação dos recursos necessários para a relização do projeto, as pesquisas sobre as embarcações continuam sendo realizadas. ''Também estamos convocando a população para nos ajudar. Se alguém tem algum objeto guardado em casa, resgatado de algum naufrágio no litoral do Estado, ou conhece alguma história curiosa, pode nos procurar'', diz a pesquisadora Marta Marques.
Informações sobre as propostas, tanto para empresas interessadas em patrocinar o projeto, como para as pessoas que queiram contribuir com a pesquisa, podem ser obtidas pelo telefone (41) 339 1100.


