Florianópolis O vento sul sopra em rajadas violentas na encosta do Morro das Aranhas, no norte da Ilha de Santa Catarina, a 35 quilômetros do centro de Florianópolis. Pedro Manoel do Nascimento, 59 anos, desde os 10 anos é pescador. É preciso apertar as pálpebras para poupar os olhos ressecados pelo ar gelado. Ele vê, como seu pai e antes dele o avô e o bisavô, a mancha cinzenta que se desloca no mar, pontilhada por peixes que saltam. São as tainhas-de-corso ou verdadeiras que, saindo do Rio Grande do Sul, dirigem-se para Cabo Frio, no Rio de Janeiro, para a desova anual.
Pedro corre algumas dezenas de metros por uma trilha estreita e sobe numa pedra, agitando seu casaco. Lá embaixo, na praia, a uns 300 metros, vai começar uma extraordinária aventura. ''Tá abanando! Tá abanando!'' O alerta é dado aos gritos. Dentro do rancho, um grupo de 50 homens, a maioria nativos e muitos deles descendentes diretos dos colonizadores açorianos que começam a chegar ao litoral catarinense em janeiro de 1748, interrompem imediatamente a refeição, a confecção de tarrafas ou o jogo da Copa do Mundo, e saem em disparada como se tivessem tomado uma injeção de adrenalina.
Sobre a areia da praia do Santinho, a canoa centenária de 10 metros por 1,60 m de boca, vai ser retirada de seu repouso e empurrada contra as ondas. Na popa, o patrão Tolentino Manoel Machado, 50 anos, coordena o esforço de quatro homens, chamados remeiros, que usam longos remos, enquanto outro homem, o chumbereiro, começa a liberar a rede, cuja ponta está presa a um longo cabo sustentado por um grupo que fica em terra.
Há dias muito ruins. A arrebentação, que faz a alegria dos surfistas na maior parte do ano, é o primeiro obstáculo a ser vencido. A canoa dá saltos sobre as ondas, que ultrapassam as bordas e encharcam a tripulação, que têm de redobrar o esforço quando é preciso ir contra o vento. A embarcação faz um semicírculo, procurando cercar o cardume, e retorna à praia, lutando para evitar as pedras do costão. Um grupo de homens está à espera para segurar a outra ponta da rede e colocar o barco em local seguro.
''Puxa a cortiça!'' ''Abre mais!'' ''Olha o chumbo!'' As ordens e contra-ordens nervosas se misturam numa algaravia de frases rápidas, com o sotaque típico do ilhéu, quase incompreensível para ouvidos desacostumados. Agora, cada centímetro dos cabos da rede é disputado por mãos de homens, mulheres e crianças que acodem ao apelo ancestral da pesca da tainha. O esforço comunitário é fundamental para puxar a rede de 300 braças de comprimento, cerca de 540 metros, por 12 braças de altura (21 metros), vencendo a formidável resistência da água revolta e o peso dos peixes.
Sem se importar com o frio ou com as ondas fortes, vários homens entram na água para manter a parte superior da rede erguida, ao mesmo tempo em que pressionam a parte de baixo contra a areia, para evitar a fuga dos peixes. Redes menores, chamadas feiticeiras, são estendidas de ambos os lados para apanhar aqueles que conseguem escapar do cerco.
Devagar, a rede é trazida para a areia. Foi um lance razoável, de cerca de 1.500 tainhas, para a temporada escassa. Uma pequena multidão observa o monte agonizante de peixes, que se debatem na areia. Tolentino e outro patrão, Norival Gomes, começam a fazer a partilha, enquanto parte da equipe trata de arrumar a rede novamente dentro da canoa. Logo, os patrões distribuem peixes para quem ajudou no arrasto. Depois, 50% dos peixes são separados para o dono da embarcação e a outra metade vai para os pescadores, os camaradas.
Na praia, a tainha, que pode pesar entre 1,5 a 3 quilos em média, é vendida por unidade. As peixarias pagam R$ 500,00 a centena. Alguns pescadores vendem seu quinhão ali mesmo, por R$ 5,00 a R$ 10,00 cada. No mercado público, o quilo da tainha está por volta de R$ 3,00 com ova, chega a custar R$ 8,00. Muito procuradas, principalmente para exportação, as ovas alcançam preço entre R$ 40,00 e R$ 50,00 o quilo.
Um dos fatos mais notáveis no cerco da tainha é que, em questão de minutos, parece que uma multidão brotou da areia para o arrastão. Enquanto aguardam a chegada de um cardume, ficam abrigadas, quase ocultas, em qualquer canto que ofereça proteção. O celular também chama quem está mais distante e, como regidas por um maestro ensandecido, correm e agarram os cabos da rede e puxam, no trabalho de difícil coordenação que pode envolver mais de cem voluntários, a maioria nativos. Parte da recompensa por sair de casa, em dias geralmente muito frios, com garoa e ventos gelados, é ganhar um peixe ou dois. A outra é participar de um ato gravado na história de suas famílias há mais dois séculos, trazendo para a areia a rede cheia de tainhas.

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