Pesadelos para amar
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de março de 2019
Marcos Losnak <br> Especial para Folha 2 
Considerada a obra-prima de Sylvia Plath, "Ariel" possui uma nebulosa e polêmica história subterrânea. Lançado postumamente em 1965, dois anos após morte da escritora norte-americana, o livro deixou críticos e leitores de boca aberta por sua potência poética.
Poucas semanas antes de cometer suicídio, Sylvia Plath (1933 - 1963) concluiu "Ariel" e guardou os originais com todas as indicações de como o livro deveria ser publicado. A tarefa de editar o material ficou nas mãos de Ted Hughes, marido de Sylvia e igualmente poeta.

Toda a história do livro mudou 40 anos depois, em 2004, quando Frieda Hughes, filha do casal, publicou uma nova edição de "Ariel" restaurando totalmente a obra idealizada pela mãe. Comparando as duas versões, ficou evidente que Ted Hughes, de maneira deliberada, alterou completamente o livro. Retirou poemas, inseriu outros, mudou sequência, etc.
As evidências mostravam que a intenção de Ted, na época, era preservar sua imagem de bom marido. Isso porque pairava a suspeita de que a depressão de Sylvia Plath, que culminou em seu suicídio, havia sido acentuada pela constante infidelidade do marido. E alguns poemas de "Ariel" abordavam justamente a dor da traição.
No prefácio da edição restaurada de "Ariel", Frieda Hughes lava um pouco da roupa suja dos conflitos familiares defendendo tanto o lado da mãe quanto o lado do pai no meio das tempestades: "As explosões eram a exceção, não a regra. A vida em casa era geralmente calma, e a relação de meus pais era diligente e amigável. Entretanto, como filha, eu precisava saber a verdade sobre a natureza de minha mãe - como também sobre a de meu pai -, uma vez que precisava compreender a mim mesma."
A primeira edição restaurada de "Ariel" saiu no Brasil em 2009. Agora a editora Record está lançando uma nova edição que traz o fac-símile do manuscrito original organizado e datilografado pela própria Sylvia Plath. Uma oportunidade de o leitor conhecer como o testemunho poético da autora foi pensado e estruturado.
Considerada uma das grandes expoentes da poesia confessional do século 20, gênero literário que floresceu na década de 1950, Sylvia Plath deixou registrado em seu diário as seguintes palavras: "Como explicar que minha felicidade depende de arrancar um pedaço da minha vida, um fragmento de aflição e beleza, e transformá-lo em palavras datilografadas numa página? Como alguém poderia entender que justifico minha vida, minhas emoções ardentes, meus sentimentos, ao passá-los para o papel?"

Serviço:
'Ariel'
Autora - Sylvia Plath
Editora - Record
Tradução - Rodrigo Garcia Lopes e Cristina Macedo
Páginas - 210
Quanto - R$ 39,90


