TEATRO PESADELO NO CÁRCERE ‘Apocalipse 1,11’, que estréia quarta-feira, leva os espectadores a um mergulho na crueldade humana em pleno presídio DivulgaçãoEm ‘Apocalipse 1,11’, o público será conduzido pelo protagonista, que passa por profundas modificações interioresMárcio ScatrutEm um corredor vazio, o espectador vai acompanhar um massacreMárcio ScatrutO presídio de Piraquara, em construção, foi adaptado para a peça Francelino França De Curitiba Uma viagem realista nos labirintos de um presídio pode ser considerada a proposta mais ousada inserida na programação do Festival de Teatro de Curitiba. ‘‘Apocalipse 1,11’’, última peça do triplo pacote dramatúrgico de Fernando Bonassi e do diretor Antônio Araújo, sai finalmente do cárcere em que se encontrava, no Presídio do Hipódromo, em São Paulo. Nessa espécie de indulto, em Curitiba, não se localizou um espaço similar à prisão paulistana. Foi preciso recorrer às modificações de um local, mas que se mantivesse dentro dos moldes da proposta inicial dos encenadores. O local escolhido recaiu sobre os pavilhões – ainda em construção – do Presídio de Piraquara, Região Metropolitana de Curitiba. Os cem espectadores programados para cada apresentação começam uma viagem de ônibus partindo do Palácio Iguaçu, uma hora antes do início da peça, com destino ao ‘‘Presídio Piraquara’’. Incursionar nessa viagem, certamente, deflagará o imaginário dos espectadores. A curiosidade ficará mais aguçada quando o ônibus adentrar os muros do presídio, se dirigindo aos novos pavilhões. O ônibus percorrerá sinuosos e empoeirados caminhos e os viajantes fazem o desembarque a 500 metros das celas. O trajeto até o presídio será feito por uma passarela iluminada, também construída especialmente para o evento. Desde o dia 9 de março, uma equipe de 30 pessoas trabalha num ritmo acelerado para transformar celas inacabadas em ambientes reais. De São Paulo, chegam 36 pessoas, entre atores e técnicos. Muitos serviços foram terceirizados. A produção está construindo um palco gigante de 600 metros quadrados e cobrindo a área com uma lona pesando 400 quilos. Nesse espaço acontecerá a cena do julgamento. O público será conduzido por João, o protagonista que passa por profunda modificação interior. Para o público, a sensação de entrar num presídio em dia de visita vai se dissipar. Esse dia será inesquecível, pois o espetáculo é simplesmente cruel, segundo a crítica especializada paulistana. Vários ambientes precisaram ser maquiados com cimento chapiscado para camuflar as 700 chapas de madeirite utilizadas na transformação do local. O espaço cênico mais transformado será o utilizado na cena da boate ‘‘Nova Jerusalém’’, onde foi instalado até um globo prateado. Outro momento que promete ser impactante será feito com o público num paredão, na cena do massacre. A produção providenciou desde santinhos de parede, bichos taxidermizados (empalhados) e até um ratinho branco. Entre outras coisas, foram usados 800 metros de madeira e colocadas provisoriamente 15 grades nas celas. Rosane Melink, ligada à produção do espetáculo, afirma que somente em material de construção foram gastos R$ 15 mil. Desde o dia 9 de março, a produção está concentrando esforços para reforçar a aproximação do texto com a realidade. ‘‘Apocalipse 1,11’’ terá ensaio aberto terça-feira, dia 21. A estréia em Curitiba será na quarta-feira, dia 22, às 21h30. Os ingressos estão esgotados. Kako Guirado, responsável pelo projeto acústico do espetáculo, adianta que ‘‘Apocalipse...’’ foi visto por integrantes do Festival de Teatro de Moscou. Está agendada para breve uma visita técnica a Portugal para viabilizar uma apresentação da tragédia apocalíptica em terras lusitanas.