Perversões e mais perversões. ''Tarântula'', romance do escritor francês Thierry Jonquet, passeia por uma coleção de sombrias perversões. Sadismo e masoquismo no café da tarde ao lado do chá com torradas.
Não é por acaso que Pedro Almodóvar se inspirou no livro para fazer seu novo filme, ''A Pele Que Habito'', que conta a história de um cirurgião plástico (interpretado por Antonio Banderas) que procura desenvolver, no porão de sua mansão, a 'pele perfeita'. Após perder a esposa num incêndio, o sujeito imagina reparar o passado inventando uma cura definitiva para a deterioração da pele.
''Tarântula'', que acaba de ser lançado pela editora Record, percorre um caminho totalmente diferente do filme de Pedro Almodóvar. É praticamente outra história, outro enfoque, outra abordagem. Até a essência da obra de Thierry Jonquet, a depuração do ódio, não integra o filme.
''Tarântula'' é formado por três narrativas paralelas. A primeira traz a história de um renomado cirurgião plástico que cultiva estranho hábito de, quando sai de casa, manter a esposa trancada num dos quartos da mansão. Também, uma vez por semana, obriga a esposa a se prostituir enquanto assiste a humilhação através de uma passagem secreta, de um vidro espelhado.
A segunda narrativa traz um sujeito trancado num porão escuro. Vítima de sequestro, ele sofre todo tipo de tortura por parte de seu carrasco. Com o tempo, começa a se afeiçoar àquele que o tortura numa relação sado-masoquista repleta de sutilezas e requintes.
A terceira narrativa traz um assaltante tentando se esconder da polícia após assaltar um banco e matar um policial. Seu retrato falado está em todas as televisões e jornais. Só lhe resta procurar lugares onde se esconder até o poeira abaixar e gastar o dinheiro roubado.
Essas três histórias, completamente distantes, se encontram no final do romance. Vale lembrar que Thierry Jonquet (1954 - 2009) é um autor de romances policiais e de suspense e insere elementos dos dois gêneros na estrutura de ''Tarântula''. E é justamente o encontro das três histórias que confere o sentido da obra.
O ponto central está na relação entre o torturado e o torturador. Entre o agressor e o agredido. Entre o escravo e o senhor. Ódio em todos os pontos, em todos os poros. Até chegar ao ponto extremo onde, o agredido começa a amar o agressor, bem como o agressor sentir carinho pelo agredido. E tudo isso nada tem a ver com a chamada Síndrome de Estocolmo.
Das três narrativas, duas delas se cruzam primeiro. O torturador do sujeito preso no porão se revela o cirurgião plástico. Vários sinais estão espalhados ao longo do romance para conclusão de que, regido por vingança, e por um ódio frio e calculista, a tortura executada pelo médico tem o objetivo de domesticar. Anular o sujeito. Roubar-lhe a identidade para inventar-lhe uma nova.
Como exímio médico e cientista da cirurgia plástica, seu trabalho se converte em aniquilar a identidade de seu refém. E a perversão está em trocar seu sexo. Transformar o sujeito numa mulher bonita e gostosa contra sua vontade. Numa versão de Doutor Frankstein com Marquês de Sade do século 21, Thierry Jonquet transforma as perversões em revelações do ódio. Mais do que isso, da vingança idealizada num prato congelado.
Quando o cruzamento das três narrativas é apresentado, nas últimas páginas do romance, surge a imagem daquela velha história do amor e do ódio abraçados devido ao frio. Basta colocar, numa mesma caixa, um cachorro e um gato abandonados que, em pouco tempo, um estará enroscado no outro procurando calor e aconchego. O resultado é previsto e inevitável: até o ódio deseja calor e aconchego.
Serviço
Tarântula
Autor - Thierry Jonquet
Editora - Record
Tradução - André Telles
Páginas - 160
Quanto - R$ 29,90
Fragmento:
Sem uma palavra, ele levou-a de volta à mansão e despiu-a antes de deitá-la na cama. Com gestos bem lentos e cautelosos, passou pomada em suas feridas e preparou-lhe um chá bem quente.
Mantinha-a junto a si, levando à xícara, que ela bebia em pequenos goles. Depois trouxe o lençol para seu peito, acariciou seus cabelos. Um sonífero estava dissolvido no chá: ela não demorou a dormir.
Ele deixou o quarto, saiu para o parque e dirigiu-se para o espelho de água. Os cisnes dormiam lado a lado, o pescoço encolhido sobre a asa, a fêmea, grácil, confortavelmente aconchegada no corpo mais imponente do macho.
Ele admirava aquela quietude, invejando aquela serenidade dopante. Chorou copiosamente. Tirara ôve das mãos do sádico e agora compreendia que aquela compaixão - chamou isso de compaixão - acabava de destruir o seu ódio, um ódio sem limite, sem freio. E o ódio era sua única razão de viver.
(Fragmento de ôTarântula" de Tierry Jonquet)

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