Desde suas primeiras cenas, que não deixam de evocar ''2001 - Uma Odisséia no Espaço'', este ''Sangue Negro'' em lançamento tardio a partir de hoje em duas salas da cidade (confira a programação de cinema na página 2) se revela uma experiência sumamente perturbadora. E na aparência deste preâmbulo nada acontece de extraordinário. Um poço, um homem que corta pedra lá dentro. O silêncio. Nada fora do comum. Mas presente ali o desassossego, que envolve o espectador como algo pegajoso e obscuro. Uma espécie de intuição, um presságio de que alguma coisa terrível está já ali antecipada.
Como trama, ''There Will Be Blood'' (Haverá Sangue, o literal, premonitório e justo título original) é uma história terrível. Na virada do século 19 para o 20, Daniel Plainview, interpretado por um Daniel Day-Lewis acima de qualquer elogio, tem um sonho. Mais que um sonho, uma obsessão, parecida com outras de muitos homens que deixaram marcas na História. Obsessão que somente levará ao desenlace previsto - o diretor Paul Thomas Anderson já havia advertido desde o título sobre a destruição que vai ocorrer neste país nascente, alicerçado pela cobiça e pela farsa da fé messiânica materializada na ''Igreja da Terceira Revelação'' do pastor Eli (Paul Dano, o rapaz mudo da família disfuncional de ''Pequena Miss Sunhine'').
O personagem de Day-Lewis, mineiro fracassado, está no centro - ele de fato é o centro - desta poderosa alegoria que reúne a uma só vez, numa espécie de filme-ensaio, o questionamento ideológico sobre a desmistificação das origens dos EUA numa época de colonos (passagem do século 19 para o 20) que amam a terra porque debaixo dela corre um tesouro com cheiro de sangue e de dólares.
Daniel Plainview é o único que conhece a essência petrolífera, o único que pretende extrair ouro negro porque este vai gerar riqueza pessoal. De certa forma, ele é uma retomada do personagem de James Dean em ''Assim Caminha a Humanidade'', mas sem o tempero de Elizabeth Taylor.
Pragmático - chama o filho pelas iniciais, H. G. -, elusivo e visceralmente franco, o protagonista destrói os esquemas de herói e inclusive de anti-herói típicos. As únicas verdades em todo o filme são as que murmura para si, ininteligíveis. Para estar mais próximo do retrato do capitalismo quando jovem: Plainview vampiriza todo aquele que cruza seu caminho. Suga o sangue das veias das pessoas e o sangue da terra. É um ser monstruoso que rasga o solo com suas máquinas, que penetra em suas entranhas e as espreme nas mãos até a última gota, até que nada mais reste.
Numa das cenas mais alegóricas do filme, Daniel Plainview, que acaba de constatar como seu filho parece ter sofrido um dano cerebral de graves consequências, observa uma imensa coluna de chamas que nasce do âmago da Terra. Em seu rosto alaranjado pela luz que irradia do petróleo que arde, nenhum indício, nenhum sinal de preocupação. Somente a marca da avareza.
Apesar de apoiado em ferramentas do cinema clássico com admirável e milimétrico uso do plano sequência e do formato anamórfico (a lente do cinemascope), Paul Thomas Anderson narra sua particular visão do sonho americano com um enfoque paralelo ao que Stanley Kubrick elegeu para contar sua versão da evolução do homem em ''2001'', ou Francis Ford Coppola para recriar seu Vietnam em ''Apocalypse Now''. Em ''Sangue Negro'', a riqueza e o virtuosismo da forma combinam à perfeição com a profundidade do conteúdo para transcender a experiência narrativa.
Paul Thomas Anderson - diretor que alcança com o quarto longa-metragem um lugar entre os grandes - construiu com este filme hipnótico, detalhista e sem concessões às bilheterias fáceis, uma exemplar descida ao inferno de uma alma condenada. Sem dúvida estamos diante de uma obra extraordinária, um dos grandes filmes da história recente do cinema.

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