O que o levou a pesquisar o coletivo Fora do Eixo?
No doutorado em História, eu havia analisado como um personagem político, na década de 1940, utilizou-se de símbolos na imprensa e em sua rede de contatos para construir uma mitologia em torno de si. Nesse período, devido ao meu interesse pela discussão sobre políticas culturais, também participei das Conferências Municipal, Estadual e Nacional de Cultura e conheci vários membros do Circuito Fora do Eixo. No primeiro momento fiquei absolutamente deslumbrado com a organização deles, que parecia ter tudo a ver com o que havia de melhor nas políticas culturais do período, como os pontos de cultura. Como desejava mudar de assunto no pós-doutorado, fiz um projeto para estudá-los e desde então procuro analisá-los a partir da perspectiva da História Cultural e dos imaginários sociais. No decorrer da pesquisa me deparei com várias contradições e notei que, curiosamente, os temas se assemelhavam com minha pesquisa do doutorado: eles também empregavam redes sociais para construir uma mitologia. Assim, a pesquisa ganhou um foco diferente e, por isso, consegui observar dinâmicas que não eram claras no início do projeto.

Você visitou as casas da rede, não? Uma das críticas dirigidas à rede é a de que por trás do discurso colaboracionista e coletivista existiria "trabalho escravo", em que os moradores/ativistas trabalhariam ali sem receber salários e ou quaisquer direitos trabalhistas. Como vê essa questão?
Em primeiro lugar, observo que o termo "trabalho escravo" foi retórico. Os depoimentos de ex-parceiros e ex-integrantes parecem genuínos, mas devem ser contextualizados, pois é natural que quem se sinta magoado use expressões mais fortes nos desabafos. Os integrantes se dedicam muito ao Fora do Eixo, noite e dia. Por isso, se é verdade que eles fazem esses sacrifícios por acreditar na causa, também é correto dizer que parte da motivação se dá por diversos tipos de pressão psicológica, que envolvem acolhimento e sentimento de culpa. Se o entusiasmo e a dedicação deles são explicados também pelo esforço na construção de uma identidade em comum, a ameaça do rompimento em relação à rede torna-se uma decisão pessoal mais traumática, dependendo do grau de envolvimento. As relações são um misto de consentimentos e coações, não se enquadram em uma definição tão pejorativa e categórica como "trabalho escravo". Mas a rede é muito dinâmica e diversificada. Os coletivos mais distantes das lideranças tendem a manter uma organização bem diferente das casas Fora do Eixo nas capitais, por exemplo. Em geral, esses coletivos são criados por amigos que confiam uns nos outros e se respeitam mutuamente. Eles não recebem salários porque os coletivos são criados por eles mesmos e também porque não se tratam de uma empresa ou de uma Ong tradicional.

Um texto sobre o coletivo, de sua autoria, tem sido mencionado tanto pela grande imprensa como nas redes sociais, principalmente após a entrevista de dois representantes do FdE no programa "Roda Viva" (TV Cultura). Como tem acompanhado a polêmica? Sua opinião mudou após os depoimentos de ex-moradores e colaboradores?
Aquele trecho do relatório foi escrito no primeiro semestre de 2013. Acompanho a polêmica atentamente, pois ainda preciso publicar o artigo final. Esses desabafos públicos confirmaram algumas dinâmicas que eu já havia notado e lançaram novas luzes sobre algumas desconfianças. As mágoas não são novas, mas apenas explodiram agora. Quem acompanha o Fora do Eixo há alguns anos conhece essas práticas - talvez sem a riqueza de detalhes que os desabafos registram. Mas é preciso esperar a poeira baixar para analisar com mais equilíbrio, até porque há muitas virtudes no Fora do Eixo, que é constituído também por muita gente boa e verdadeiramente empenhada em experimentar ações interessantes no campo da produção cultural e do ativismo político. Ao rejeitá-los de modo indiscriminado, analistas podem cair na armadilha de combater algumas boas ideias que eles abraçaram.

Acredita que, após essa celeuma, coletivos semelhantes ou núcleos independentes de cultura terão mais dificuldades para conseguir recursos através de editais oficiais?
Não é possível saber. A curto prazo, talvez as agências prefiram manter a desconfiança. Mas a longo prazo, tudo pode acontecer. A essência dos coletivos culturais em rede é muito interessante, assim como há mais de um século são promissoras as experiências de cooperativismo, colaboracionismo e mutualismo. E parte das críticas que o Fora do Eixo vem recebendo é feita justamente por outros coletivos que possuem métodos diferentes e que chegam a discordar abertamente das ideias de Pablo Capilé, por exemplo. Já estou curioso para ver como essa história será contada no futuro.

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