PERSONALIDADE - Uma crítica em ação
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2003
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
''Sou uma 'dinossaura' assumida e feliz''. Assim se auto-define Helena Katz, a conceituada crítica de dança do Estadão, que esteve semana passada, em Londrina, à convite do Ballet de Londrina, para conhecer os trabalhos da companhia que está comemorando dez anos. Com o mesmo despojamento e franqueza que imprime em suas críticas que se somam a 27 anos dedicados ao jornalismo cultural , Helena fala de si mesma. ''Não tenho problemas com idade. Não pinto o cabelo, não escondo as minhas rugas. Adoro quando os meus netos me chamam de vó. Vivi muito bem todas as fases da minha vida'', comenta a crítica, com os seus 53 anos, número que carrega estampado na bolsa de estilo moderno, presente de uma das duas filhas.
Referência de peso quando se trata de crítica especializada na área de dança embora sua grande paixão, confessa, seja o canto lírico, e, apesar da afinidade com dança, nunca sonhou em ser bailarina , Helena veio disposta a participar de uma pequena maratona na cidade. De manhã, conheceu as instalações da Funcart e alguns trabalhos desenvolvidos pela Escola Municipal de Londrina, incluindo o Ballezinho de Londrina. Ficou encantada com o que viu. ''O caminho é esse. A Escola Municipal permite que o ensino da dança seja democratizado. Há um trabalho de inclusão social admirável, assim como há a possibilidade de ensinar a dança para qualquer pessoa interessada, independente da classe social'', ressaltou a crítica, que fundou em 1986 o Centro de Estudo do Corpo (CEC), dentro do curso de semiótica da PUC-São Paulo.
O almoço foi em companhia do prefeito Nedson Micheleti (PT) e do secretário de Cultura Bernardo Pellegrini. ''Fiquei admirada com o trabalho que está sendo desenvolvido na área de cultura da cidade. Gostaria de cloná-los e distribuí-los por todo o Brasil'', brincou Helena. Bastante otimista com o governo Lula, em quem votou, disse que nunca o país esteve tão propício para a discussão das políticas públicas na área de cultura. ''Ainda não houve mudanças significativas, mas estou confiante que elas ainda venham a acontecer. Não temos um Ministério da Cultura efetivamente. Temos um 'Ministério do Cinema''', afirmou.
Na sua opinião, a prioridade é a reformulação das leis de incentivo à cultura. ''Da maneira como estão, os produtores culturais ficam reféns dos gerentes de marketing das empresas. Isso não é política cultural pública, apesar dos recursos serem provenientes de subsídios de impostos.''
Segundo ela, o modelo do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) desenvolvido em Londrina é ''precioso, único, inovador'' e serve de modelo para todo o Brasil. ''O município criou um fundo de cultura e tem as conferências municipais de cultura que proporcionam a discussão das prioridades. Isso é política pública. O município assume a sua parcela de investimento e se a iniciativa privada quer ter o seu nome divulgado com os projetos culturais tem que fazer investimentos diretos, independente do pagamento de impostos'', defendeu.
O aumento do acesso aos bens culturais também é uma tônica forte do discurso de Helena. ''Precisamos dividir a informação, ter uma política permanente de cultura, com produções circulando por todos os municípios o ano inteiro. A arte não deve ser vista como algo elitista. Todos têm condições de apreciar espetáculos de qualidade. Precisamos abandonar este 'espectro de colonizador' de que qualquer coisa serve. A cultura precisa florescer.''
Ela defende que os recursos públicos sejam melhor direcionados. Com um tom bastante acentuado de indignação, ela criticou a instalação da filial do Ballet Bolshoi, em Joinville (SC), há três anos, que consomem anualmente R$ 6 milhões, incluindo recursos públicos e privados. ''Isso é um absurdo. Muitas escolas brasileiras poderiam estar sendo criadas e mantidas com esse recurso que privilegia um modelo maléfico, anacrônico, em crise, como se no Brasil não existissem bons professores de dança. É uma ação predadora'', desabafou.
Helena tem sido uma das porta-vozes mais contundentes em defender a liberdade do exercício da profissão de professores de dança. Recentemente, criticou matéria da Rede Globo que comparava dança com esporte, que, segundo ela que participa do Fórum Nacional de Dança , foi uma forma velada de legitimar a idéia de que a dança precise passar pelo crivo dos profissionais de Educação Física para se exercida. A briga é contra o Conselho Federal de Eduação Física (Confef) que objetiva interferir nas atividades dos professores de dança, yoga, capoeira, artes marciais e pilates. Para impedir isso, está tramitando o projeto de lei 7370-2002, na Comissão de Educação da Câmara dos Desportos, que está em última instância.
Helena também abordou a crise atual do jornalismo cultural, considerado reflexo direto da aproximação entre as empresas de comunicação e entretenimento. ''Não há espaço para reflexão no jornalismo diário e essa lacuna também não é preenchida pelas universidades. É difícil separar entretenimento de cultura. Sou a favor de uma crítica que se faça um instrumento de educação e a possibilidade da construção de um pensamento que promova a reflexão.''


