PERSONALIDADE - Uma atriz que imita a vida
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quarta-feira, 01 de outubro de 2003
Beth Néspoli<br> Agência Estado 
Em meados da década de 80, depois de passar pelo Grupo Tapa, a atriz Denise Fraga formou sua companhia teatral o Cite Teatro , que tinha um fusca como símbolo. Isso porque os cenários das peças tinham de caber na mala do fusca 64 da atriz. A recordação é acompanhada de boas risadas. Mas a lembrança em nenhum momento vem associada a idéias como ''tempos difíceis'' ou ''precariedade''. Pelo contrário. São lembranças agradáveis, de bons momentos na carreira dessa atriz que muitos conhecem apenas pelo grande talento cômico.
Compreensível quando associamos seu nome ao quadro ''Retrato Falado'', exibido aos domingos no programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão, ou a interpretações como a da minissérie ''Auto da Compadecida''. Mas quem teve a oportunidade de vê-la em peças como ''Contos de Inverno'', de Shakespeare; ''Senhora dos Afogados'', de Nelson Rodrigues ou ''Esperando Godot'', de Beckett, todas montagens cariocas, sabe que ela pode ser definida como comediante na acepção plena desse termo intérprete capaz de transitar da comédia à tragédia. Talento que poderá ser conferido a partir da próxima semana, quando ela volta ao palco, depois de sete anos de afastamento, com a peça ''3 Versões da Vida'', da autora francesa Yazmina Reza.
Denise interpreta uma mulher que recebe, com o marido, um casal para jantar. Os dois homens são colegas de profissão, ambos são astrofísicos. ''É uma comédia, tem tempo de humor, mas, ao mesmo tempo, a autora fala de coisas extraordinárias'', diz a atriz sobre a peça, que contrapõe questões ligadas ao cosmos com a educação dos filhos e a competição intelectual entre os dois homens. ''Yasmina fala como é preciso prestar atenção nas relações humanas, de como entortamos uma coisa aparentemente tão fácil que é viver e se relacionar.'' Sob direção de Elias Andreatto, com Marco Ricca, Ilana Kaplan e Mario Schöemberger no elenco, a montagem estréia no dia 9, no Teatro Renaissance, em São Paulo.
O intervalo na carreira da atriz chama atenção. Afinal, foram 12 anos seguidos de atuação em teatro. ''Essa será a minha 15 peça. Lembro que entre minha saída de ''Trair e Coçar'' e o início da temporada de ''A Quarta Estação'' (com Juca de Oliveira, em 1996), houve um intervalo de um mês. Fui ao cinema num sábado, no Conjunto Nacional, e levei um susto com aquela quantidade de gente. Achei que tinha acontecido alguma coisa especial'', lembra. Só então percebeu que há anos não ia ao cinema em fins de semana.
Mas a motivação para tal intervalo foi mais do que justa os filhos. São dois, de 7 e 5 anos. ''O teatro solicita nossas noites, justamente o momento em que a família fica junto, brinca, conversa. E a infância é tão fugaz. Por outro lado, estava com urgência de palco.'' Denise passou a infância no bairro de Lins de Vasconcelos, subúrbio carioca. ''Era mesmo uma menina de bairro, dessas que se veste de rosa'', lembra. ''E no Rio, onde tudo está concentrado na zona sul, morar no subúrbio é quase morar no interior.''
Sua trajetória reforça a importância de abrir portas aos talentos, através da democratização da arte. ''Eu e minha mãe éramos sócias da Câmara de Arte, que oferecia ingressos com desconto. Daí a gente ia a peças no meio da semana, ia sempre, mesmo em atrações sem nomes famosos. Éramos boas espectadoras.''
Mas o desejo de ser atriz só viria mais tarde. ''Quando passei no vestibular para Belas Artes, minha mãe sugeriu que eu aproveitasse um intervalo antes do início das aulas para fazer cursos livres. E um amigo sugeriu um curso de teatro.'' Descobriu sua vocação. Algum tempo depois, venceu 325 candidatos na disputa por uma vaga na Escola de Teatro Martins Pena, no Rio, a única gratuita. ''Era época em que eu regulava dinheiro. E achei que fosse ser sempre assim. Meu sonho era que o Cite Teatro durasse 20 anos.''


