Aos 63 anos, ele é, com Robert Crumb, uma espécie de reserva ecológica mundial do cartum underground. Não é por acaso que os dois vivem na França, como auto-exilados. Ele é Gilbert Shelton, o festejado autor dos ''Freak Brothers'', amigo dos maiores doidões dos anos 60, como sua conterrânea texana Janis Joplin. E ele está no Brasil desde ontem, participando do 1º Festival de Humor Gráfico de Foz do Iguaçu.
''Na França, onde vivo atualmente, a cena dos quadrinhos é muito melhor que nos Estados Unidos. O governo francês apóia, os governos locais apóiam e há instituições nacionais dedicadas a isso. Há grandes mostras e os artistas dos quadrinhos têm mais prestígio aqui'', disse Shelton, falando por telefone, na tarde de ontem.
''Não acho necessário que haja esse apoio do governo, mas é legal ver que aqui as universidades e as autoridades dão apoio. O trabalho do cartunista é muito individualista, você tanto pode publicar por grandes editoras quanto por pequenas, não faz diferença. Eu não me importo se é grande ou pequena, mas numa pequena editora eu tenho melhores relações com meu publisher'', ponderou o cartunista.
Shelton disse que tinha acabado de ver uma edição do seu novo editor brasileiro, a Conrad Editora, e elogiou a edição. ''Não os encontrei ainda, mas fico feliz de ver que fazem um bom trabalho.'' A Conrad publicou duas histórias do seu personagem ''Wonder Wart-Hog'' na antologia ''Zap Comix''.
''Wonder Wart-Hog é uma paródia do Super-Homem que eu criei em 1961. Publiquei inicialmente na revista da universidade do Texas, onde eu estudava, a Ranger. Não sei se ela existe ainda hoje, mas acredito que não. A infinidade de problemas que criamos naqueles tempos não devem ter permitido sua sobrevivência.''
Em 1965, Shelton criou os ''Fabulous Furry Freak Brothers'', um dos maiores clássicos dos quadrinhos, o avesso do avesso do avesso da indústria de super-heróis e da fábrica da Disney. A série já vendeu milhões de exemplares. Atualmente, em Paris, onde trabalha com Pic na série sobre rock'n'roll ''Not Quite Dead'', sobre ''a mais famosa banda de rock do mundo que nunca gravou um CD''.
''Tem quem ache que comics seja uma arte, outros acham que não'', ele diz, evitando entrar nessa discussão. Ele esteve no centro do palco da grande revolução underground dos anos 60. Publicou até para a Help, de Harvey Kurtzman. Hoje, publica suas agora denominadas ''bande dessinées'' pela pequena Tête Rock Underground. ''Apesar de pequena, eles conseguem vender centenas de milhares de comic books, têm um desempenho muito bom'', avalia o cartunista.
Shelton disse que ficou encantado com ''as flores e os pássaros estranhos'' que já tinha visto em Foz e ontem se preparava para uma incursão pelas quedas d'água. O terror dos comics está na área.

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