Ele tem 32 anos, reverencia Odair José e Antônio Marcos, coleciona VHS de cinema marginal dos anos 70, é vegetariano desde pequeno, mora com a mãe e faz free lance de serviços braçais, como carga e descarga, por exemplo. O londrinense Fabiano Alves Paes poderia ser um tipo excêntrico qualquer se não fosse pelo projeto que iniciou ano passado: escrever seus livros, pensar nas capas, ''publicá-los'' (leia-se xerocá-los) e ir a campo para divulgação.
Até hoje, o poeta-escritor já redigiu quatro livros, dos quais comercializou cerca de quinhentas cópias (vendidas ao preço de R$ 2,50 cada) nos bares e botecos da cidade. ''Assim que termino de escrever, xeroco uns dez e, às vezes, vendo tudo. Com o dinheiro, eu pago o ônibus, bebo e tento fazer outras cópias'', revelou Paes.
Numa primeira olhada, excesso de palavrões, conteúdo escatológico, erros de acentução, digitação e, até, concordância. Mas, despindo-se das amarras do proconceito, já é possível visualizar algumas discretas nuances em seu ''estilo''. As influências do escritor? ''O primeiro livro que me chamou a atenção foi um de capa rosa, do Charles Bukowski, mas não me lembro o nome, e outro do Torquato Neto. Isso eu tinha uns 17 anos. Hoje eu também gosto de John Fante, Augusto e Haroldo de Campos e Ken Parker'', destacou.
Para justificar seus erros gramaticais e a opção pelas palavras chulas, Paes diz que gosta de produzir tudo de uma vez, sem revisão: ''Meus textos e poesias não tem nada de palavras rebuscadas. Quero extirpar todos os demônios que há em mim. Extirpo meus pesadelos quando coloco papel na máquina de escrever e crio''. Entre palavrões, gírias, linguagem coloquial, sexo selvagem e violência, o escritor afirma que seu trabalho apresenta mínimos traços autobiográficos. ''Não quero transgredir nada, apenas escrever seguindo meu estilo próprio. Não tenho esperança de me tornar um escritor. Pode não parecer, mas sou um cara romântico; se bobear estou mais para Álvares de Azevedo do que para Bukowski, na minha opinião'', acrescentou
Taciturno por opção, ele enfatiza que, embora goste dos bares, jamais teve inspiração nesses ambientes. ''As idéias surgem melhor no meu quarto, com a parede toda branca para projetar minhas idéias. Nos bares, as paredes e os espaços estão todos preenchidos'', disse.
Paes teve seu primeiro contato com o universo literário aos 17 anos, época em que trabalhava como auxiliar de escritório. ''Na hora do almoço eu ia para a Biblioteca Municipal, mas sem interesse pela leitura, só para ficar lá e passar o tempo. Até que um dia eu comecei a ler'', completou. Com apenas o ensino médio completo, após sete anos servindo a um escritório, Paes decidiu abandonar o serviço burocrático e dedicar-se apenas aos trabalhos free lance e à literatura. Até o momento, os livros redigidos são: ''Na Lona'', ''Artes de Matar'', ''Quem Matou a Personagem'' e ''Adeus Querida Lola'' - todos organizados em 2006.


Trecho extraído do livro ‘‘Quem Matou a Personagem’’, de Fabiano Alves Paes

‘‘Até que enfim...
Não sei como, mas consegui chegar em casa. Ao chegar, abri a geladeira, descabacei uma cerva, fiz uma salada de repolho com shoyu e vazei para o quarto.
O quarto era o mesmo.
A bagunça era a mesma.
O fedor era o mesmo.
O bolor.
A angústia.
A solidão.
O uísque.
O desejo.
O CD...não, não era o mesmo. Era o velhor burguês, filhinho de papai, abri a caixinha, tirei o CD, botei no aparelho, programei a 4ªfaixa: ‘Silvia – 20 horas, Domingo’. (...)
Havia lágrimas nos meus olhos.’’
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Serviço
- Os interessados em adquirir os livros de Fabiano Alves Paes devem entrar em contato através do telefone (43) 3253-4295.

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