Personagens em estado de graça
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sexta-feira, 20 de junho de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
ReproduçãoJulia Roberts e Woody Allen: sedução e conquista nas vielas de VenezaPara um jornalista da Bósnia, que conheci há um mês durante o Festival de Cannes, Woody Allen é nada menos que um benfeitor da humanidade. Ele se referia particularmente a este Todos Dizem Eu te Amo(confira a programação de cinema na página 4), que considera tão marcante para a história do cinema quanto Cantando na Chuva. Exageros à parte, o filme alimenta o desejo, como em Mia Farrow de A Rosa Púrpura do Cairo, de atravessar a tela para participar da vida dos personagens. Passar um momento com eles. Rir com eles. Cantar com eles. E tornar-se por um instante como eles, estranhamente enfeitiçados. Dois momentos sublimes entre muitos outros. Woody Allen em Veneza. Ele faz jogging perseguindo Julia Roberts pelas vielas e pontes de uma cidade que prepara armadilhas e dificuldades para o pobre sedutor. E depois, em Paris, a dança de Woody com Goldie Hawn. Homenagem evidente a Um Americano em Paris, de Vincente Minelli. E quem diz homenagem diz nostalgia. Aqui, uma graça inesperada, insolente e poética deixa uma vez mais o espectador maravilhado e cúmplice. Para interagir assim tão bem com Woody, para dar a impressão de que se está vendo pela primeira vez uma cena que ele conhece de cor, é preciso ser meio mágico também. E o que é fascinante, em se tratando do cinema de Woody Allen, é que a magia parece natural. Já no primeiro plano de Todos Dizem Eu te Amo, numa Nova York em cores de sonho, um jovem começa a cantar Just You, Just Me, uma das referências nostálgicas que o cineasta tanto ama. E logo todos na rua se põem a participar: uma mulher e sua enfermeira, três garotas, um mendigo e três manequins que ganham vida numa vitrine. É esta a magia de Woody Allen.
SortilégioDe filme para filme - e Woody já está no 28º - seus personagens parecem ligados por um misterioso sortilégio fraternal. Diferentes mas assemelhados vejamos quem são, em Todos Dizem Eu te Amo. Djuna (Natasha Lyonne) é quem narra e quem apresenta os demais. Djuna é filha de Joe (Woody), escritor malsucedido com as mulheres. Ele vive na França, e vê-lo pelas ruas de Paris marchando sinistro com uma baguete debaixo do braço é algo irresistível. Continua procurando a alma gêmea, que bem pode ser a bela Von (Julia Roberts), por quem caiu fulminado de amor. Sua ex-mulher é Steffi (Goldie Hawn), uma feroz democrata especializada em curso para reciclagem de estupefatos guardas penitenciários e adepta de prisões decoradas e abertas. Steffi é casada com Bob (Alan Alda), outro feroz democrata que não acredita nas sandices republicanas repetidas diariamente por seu primogênito Scott (Lukas Haas). Há ainda Skylar (Drew Barrymore), filha de Bob e em véspera de casamento. Ao longo de mais ou menos um ano, eles vão viver suas histórias de amor. Com música e dança. Uma dúzia de personagens que se cruzam e se desencontram, que se apaixonam e se desapaixonam, ligados por uma mise-en-scSne invisível mas precisa, que tece entre eles uma espécie rara de arabesco. A graça em delicado estado puro, quando redescobre que a procura vale mais que a conquista. Ou que o desejo importa mais que a posse.
Nesta deliciosa comédia musical com gente que não sabe dançar ou cantar, Woody Allen realiza seu velho sonho de visitar uma fonte cinematográfica ilustre. Todos Dizem Eu te Amo se inscreve desde já na tradição clássica americana de contar boas histórias com boa música (Dick Hyman & Clássicos) e boa coreografia (Graciela Daniele). Aos 61 anos, mesmo sem saber dançar ou cantar, como seus atores, Woody depura uma vez mais a forma de armar suas narrativas. E uma vez mais provoca espanto e estupefação pela jovialidade e frescor de sua dupla performance.


