Personagens da escuridão
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de fevereiro de 2002
Marcos Losnak Especial para a Folha 
O lado escuro do homem é um território vasto. Tão vasto quanto seu lado iluminado. Para ocupar esse território envolto pela escuridão, o homem desenvolveu alguns métodos simbólicos. Entre eles, estaria o ato de inventar histórias para retratar o lado escuro e sua coleção de medos.
São inúmeras as histórias criadas ao longo dos séculos com esse enfoque. Seus personagens tornaram tão famosos e populares que entraram para a estante dos clássicos da literatura mundial. Entre eles estão as lendárias figuras de Frankenstein, Conde Drácula e Dr. Jekyll.
A Editora Objetiva revolveu juntar os romances protagonizados por esses três personagens num único livro. Um volume que reúne, com textos integrais, os mais populares clássicos da literatura de terror: Frankenstein, da escritora inglesa Mary Shelley (1797 - 1851), Drácula, do irlandês Bram Stoker (1847 - 1912) e O Médico e o Monstro do escocês Robert Louis Stevenson (1850 - 1894).
Todos escritos no século 19, os textos focalizam as forças do mal cada um de modo específico. Frankenstein e Drácula trabalham com a imagem do mal provindo de fora para dentro do homem um mal que o atormenta. Já O Médico e o Monstro trabalha com o mal que nasce no interior do homem e o transforma numa anomalia com sua devida autorização.
Quem conhece as figuras de Frankenstein, Drácula e Dr. Jekyll através das dezenas de adaptações realizadas para o cinema, terá surpresa ao entrar em contato com os textos originais. Em Frankenstein, escrito por Mary Shelley quando tinha apenas 19 anos, o monstro não representa exatamente a imagem pintada pelos filmes.
Frankenstein, na realidade, é um criatura de bom coração que, pela sua anomalia física, é desprezado pelas pessoas. Incapaz de estabelecer contato com outros seres humanos, é condenado ao isolamento desprovido de amor. Diante da incapacidade de uma vida normal, ele se revolta contra seu criador, o Dr. Victor Frankenstein. Na dolorosa violência da ausência do contato humano, a criatura viverá em nome de uma vingança inundada de sangue. A idéia de imortalidade, assim como em Drácula, também entra em jogo.
Das três obras, sem dúvida O Médico e o Monstro (publicada originalmente com o título de A Estranha História de Dr. Jekyll) é o melhor trabalhado do ponto de vista literário. O terror de suas páginas é relativamente pequeno diante do suspense desenvolvido por Robert Louis Stevenson. O retrato psicológico do Dr. Jekyll, que através da ingestão de uma fórmula química desenvolve personalidade dupla, apresenta uma abordagem de como a maldade pode germinar no interior da mente humana. E, dependendo da situação, ela pode dominar o lado bom com autorização da própria mente.
A comparação entre os três romance pode oferecer uma série de interessantes reflexões. Na edição lançada pela Ediouro uma introdução assinada pelo escritor Stephen King sugere alguns caminhos. Superficiais, mas que podem ativar os neurônios do leitor para pensar mais além.
A figura de Frankenstein, por exemplo, já foi associada ao impasse da ciência e suas responsabilidades. Drácula, foi descrito como uma imagem do capitalismo. Dr. Jekyll, um retrato dos políticos que levam vida dupla de administradores públicos e larápios. Diante das leituras mais loucas ou sensatas, Frankenstein, Drácula e O Médico e o Monstro pode ser lido simplesmente como clássicos da ficção do século 19 que recebeu o rótulo moderno de literatura de horror.
Serviço:
Frankenstein, Drácula, O Médico e o Monstro, de Mary Shelley, Bran Stoker e Robert Louis Stevenson, Editora Ediouro, tradução de Adriana Lisboa, introdução de Stephen King, 700 páginas, R$ 49,90.


