Ficar preso dentro de um elevador com outra pessoa dá arrepios em muita gente só de pensar. Tal situação encontra similares no dia-a-dia que não permitem driblar o desconforto e acabam explodindo em reações inusitadas. Esperar uma cancela mover-se e o trem passar, por exemplo, também pode despertar verdades ocultas e sentimentos inesperados. Esse é o trilho da investigação do grupo SSmola Teatre, da Espanha, que apresenta hoje e amanhã um dos espetáculos mais esperados do Festival Internacional de Londrina (Filo).
O grupo já esteve na cidade em 1992, com a atração ‘‘In Concert’’. Agora, quatro atores sobem ao palco do Cine-Teatro Ouro Verde, às 21 horas, com ‘‘Bailamos?’’, uma montagem que expõe traços das relações humanas, desvendando sentimentos que o homem tenta ocultar. O espetáculo revela personagens dentro de um carro, impedidos de continuar a viagem por causa de uma cancela. À espera do trem – e da liberação da estrada –, o tempo pára e a inquietação traz à tona os limites emocionais dos protagonistas.
Na história do SSmola – considerada pelo diretor Joan Grau um conto cruel com doses de humor – dois homens seguem viagem para um mesmo destino: uma festa de fim de ano. No entanto, ambos estão atendendo a um pedido especial. A mulher de um deles – que também foi casada com o outro – deixou um bilhete antes de suicidar-se, pedindo que os dois fossem juntos jogar suas cinzas.
O argentino Nestor Sanz, que interpreta o ex-marido da morta, é o esteriótipo do machista. Insensível, frívolo, só pensa em ir à festa. À tira-colo, ele traz a namorada – papel de Fina Solà – uma mulher vulgar e fútil, que passa a maior parte da viagem dormindo no banco de trás do carro. Já o viúvo – o holandês Egbert de Jong – tem uma personalidade menos agressiva: é tímido, frágil e sente culpa pelo suicídio da mulher. ‘‘Com a interrupção da viagem, começam a acontecer coisas estranhas. As personalidades agressivas se sobressaem e chega-se a uma situação caótica’’, antecipa o diretor.
O descontrole emocional leva os personagens a enxergar até mesmo a imagem da mulher morta (Llum Barraldés). ‘‘A aparição dela é uma provocação’’, antecipa Grau. ‘‘Buscamos uma história atrativa para o espectador, com humor e ironia, tentando potencializar o trabalho do ator’’. ‘‘Bailamos?’’ é um espetáculo referente a essa investigação. ‘‘Uma característica do SSmola é que sabemos mesclar efeitos especiais com a habilidade de contar uma história abordando sentimentos humanos’’, salienta. O grupo utiliza-se de imagens não convencionais, sons e movimentos da dança (com a colaboração da coreógrafa Marta Carrasco) para retratar as emoções humanas.
O cenário de ‘‘Bailamos?’’ foi adaptado para a apresentação em Londrina e alguns efeitos especiais serão reduzidos. Uma viagem anterior do grupo impossibilitou o despacho do material em tempo. Mesmo assim, o SSmola arrumou um substituto para o carro da cena (um Fiat foi literalmente carregado por alguns braços fortes para o palco do Ouro Verde).
O SSmola Teatre existe há 22 anos, mas firmou-se profissionalmente na última década. ‘‘A partir de ‘In Concert’, a companhia estourou. Foi um marco na história do grupo’’, diz Joan Grau. Hoje, a companhia catalã é um dos grandes nomes da cena espanhola no contexto internacional. Também é considerado um grupo de referência na investigação do circo, apesar desses registros servirem apenas de base para uma nova forma de resgatar a sensibilidade do espectador.
‘‘Bailamos?’’, espetáculo com o grupo SSmola Teatre, da Espanha. Argumento e direção: Joan Grau. Elenco: Egbert de Jong, Nestor Sanz, Fina Solà e Llum Barraldés. Cenografia: Fina Solà e Joan Grau. Cenotécnico: Ferran Celma. Iluminação: Pep Vila. Som: Micky. Duração: 60 minutos.

mockup