Como a ex-vedete Velma, de ‘‘Aquarela do Brasil’’, a atriz Ângela Vieira diz relembrar o tempo em que fazia parte do Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Por pouco Ângela Vieira fica fora de ‘‘Aquarela do Brasil’’. Ao constatar o número de atores ‘‘reciclados’’ de ‘‘Terra Nostra’’, a carioca de 48 anos chegou a titubear em aceitar o convite de Jayme Monjardim. Agora, pela primeira vez com o cabelo pintado de louro, a atriz de voz aveludada e jeito franco dá graças a Deus por ter praticamente emendado a novela das oito com a macrossérie de Lauro César Muniz. A personagem Velma – uma ex-vedete, assistente de auditório e amante do dono da fictícia Rádio Carioca – faz a atriz relembrar os tempos em que integrava o Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. ‘‘Tive contato com artistas que trabalharam em cassinos e nas rádios. Estou emprestando muito da minha memória para esta personagem’’, emociona-se a atriz, que aos cinco anos começou a estudar balé.
Além do mergulho no passado, ‘‘Aquarela do Brasil’’ ainda deve revelar o lado cantora de Ângela. ‘‘Acho que vou cantar. Estou adorando a idéia do Lauro’’, confessa, com um sorriso maroto. Admiradora de cigarros indianos, que espalham no ar um aroma de canela, a atriz estréia no formato de macrossérie. Ela é taxativa ao garantir que prefere fazer personagens leves a vilãs, como a megera Janete que interpretou em ‘‘Terra Nostra’’, também dirigida por Jayme Monjardim. ‘‘Sinto mais prazer gargalhando em cena do que ter de interpretar personagens mal-humoradas’’, compara Ângela, que antes de estrear na tevê em ‘‘Corpo Santo’’, em 1987, na extinta Manchete, integrava o elenco de humorísticos globais, como ‘‘Planeta dos Homens’’ e ‘‘Viva o Gordo’’.
Dona de uma forma invejável, que explica o fato de ter vendido 500 mil exemplares da ‘‘Playboy’’ no final de 1999, a atriz de 1,73 metros de altura tem uma carreira marcada pela diversidade de papéis. Ela já viveu mafiosas, mulheres traídas, independentes, fogosas e vilãs. Feliz por ter ganho sempre personagens diferentes entre si, Ângela só perde o humor ao lembrar que seu nome já foi envolvido em supostos romances com colegas da profissão. ‘‘Ainda penso da mesma maneira. É uma falta de respeito’’, revolta-se a atriz de olhos penetrantes e amendoados.
Você praticamente emendou ‘‘Aquarela do Brasil’’ com ‘‘Terra Nostra’’. Não tem medo de desgastar sua imagem?
Quase não fiz esta macrossérie porque havia muitos atores de ‘‘Terra Nostra’’ escalados, como o Juan Alba e o Antônio Calloni. Inclusive eles ficaram de fora. ‘‘Aquarela’’ seria uma novela das seis para outubro. Mas mudaram não só o horário, como a estréia. Realmente ficou muito junto. E tinha o casal protagonista, que vinha de ‘‘Terra Nostra’’. Para a Maria Fernanda, que estourou, houve um receio ainda maior dentro da emissora. Mas, no meu caso, fiquei bem diferente. Loura, outra maneira de andar e falar. A história da macrossérie se passa 40 anos depois da novela. Para o público, talvez fique cansativo pela imagem, mas é mais confortável trabalhar com uma equipe conhecida. O problema de ‘‘Aquarela’’ é o horário muito tarde da exibição.
A Velma é uma ex-vedete. Pode-se dizer que é o personagem mais perto do seu universo de bailarina?
Certamente. A experiência como bailarina profissional faz com que resolva com mais facilidade a parte corporal de um personagem. Foram anos de condicionamento. Quando vou compor, esta descoberta do gestual é a fase mais gostosa. Estou emprestando muito de mim para a Velma.
Foi inspirada em alguém?
Não. Nunca me passaram que estava fazendo a vida de ou inspirada em. O Lauro deve ter se inspirado nesta época, quando a Virgínia Lane era talvez a maior vedete do Brasil. Particularmente me inspirei no clima que envolvia as mulheres no filme ‘‘Quanto Mais Quente Melhor’’, da Marilyn Monroe com o Tony Curtis. Já em ‘‘Terra Nostra’’ o Jayme pediu para perceber o clima dos filmes da Bette Davis. Ninguém fazia coisas cruéis com o olhar tão ingênuo quanto ela. Mas não procurei ex-vedetes. O que me foi pedido era que a Velma fosse sedutora.
É mais prazeroso fazer uma personagem como a Velma do que uma vilã, como em ‘‘Terra’’?
O Benedito falou que na novela dele não tem vilã. Ele sempre tinha justificativa. Mas como alguém que tira o filho de uma mãe tem justificativa, meu Deus? Mas autor é autor. Prefiro dar gargalhada. Você trabalha com uma energia pesada fazendo a vilã. E as pessoas acham que é você a má. Foi mais cansativo viver a Janete, porque ficava seis horas fazendo de conta que era amarga, mal-humorada, de mal com a vida. Você não sai do estúdio rindo.
Você faz várias cenas de cama com o Odilon. Já não existe mais aquela coisa de apenas atrizes novas fazerem cenas mais picantes?
Está mudando. Antes era um casal de protagonistas, hoje tem cinco ou seis papéis importantes com histórias distintas. Então começou a haver sensualidade entre um casal de 40 e poucos anos. Tanto que em ‘‘Meu Bem Querer’’, que fazia par com José Mayer, nós éramos assumidamente ‘‘quarentões’’ e tinha todo um romance. Recebíamos e-mails de pessoas elogiando, dizendo que era prazeroso. O importante na tevê é variar os produtos e não nivelar por baixo. O problema em ‘‘Terra Nostra’’ foi que me arranjaram vários namorados. Marcelo Saback, Marcelo Antony, Juan Alba... Qualquer pessoa do meu lado virava meu namorado.
Você teve uma base no teatro e na dança. Você não acha que deveria haver mais atores do teatro na tevê?
A Glória Pires só fez tevê e é uma grande atriz. É possível crescer dentro da tevê também. Não tenho preconceito. Venha de onde vier. Modelo, cantora, vendedora de cosméticos... o que precisa é ter talento e que não estraguem o talento destas pessoas. Porque para correr, precisa primeiro engatinhar, firmar as pernas, caminhar e apressar o passo.
Mas geralmente isso não acontece...
Isso não é culpa do profissional. Mas de quem oferece o papel, além das pernas, para ele.
Mas o profissional não tem de conhecer o seu limite?
É difícil, porque são jovens. O sucesso é sedutor e abre portas. Em determinados casos, mais dos homens, o dinheiro vem rápido. A Maria Fernanda, por exemplo, relutou para trabalhar em ‘‘Aquarela’’. Ela foi seduzida e está fazendo muito bem. Tenho lido que ela é inexperiente. Mas é óbvio que é. Ela nunca disse que não era. Então é preciso saber o que oferecer ao profissional. A Cláudia Abreu é um ótimo exemplo. Ela veio devagar, fazendo pequenos papéis e ralando no teatro. Teve a sorte de não sair do A para o D. Hoje é uma grande atriz. Então este enquadramento é da própria emissora. Porque é mais prático. Claro que temos talentos desperdiçados e pessoas que tem a vocação para não ter talento. Aí é complicado. Como também é a questão salarial dos atores.
Por quê?
Um exemplo é que os salários dos atores mexicanos são maiores que os nossos. Claro que não dá para comparar com cinco ou seis. Isso pesa muito. Porque se você não quiser tem muita gente que quer. Então é desleal. Como organizar esta classe? Em 1986 conseguimos que respeitassem as oito horas de trabalho. Claro que acontecem exceções e ganhamos horas extras. Mas tem os acordos particulares e aí é cada um por si. Mas não vai aí nenhuma condenação. Não adianta tomar uma posição, se você pode se prejudicar depois. Os atores são desorganizados e isso propicia a falta de respeito.

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