PERSONAGEM Na ginga do Aranha
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quarta-feira, 11 de junho de 2003
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Quando menino, nas brincadeiras com os amigos, vivia dando pernadas para o ar. Não tinha a menor idéia da grande desenvoltura corporal até que um dia alguém lhe disse que as piruetas lembravam golpes de capoeira. E foi assim, por volta dos 12 anos, que Isac Damasceno Puridade, baiano de Coração de Maria, começou a se interessar em conhecer essa arte trazida pelos escravos africanos. Hoje, aos 41 anos, é conhecido e respeitado como Mestre Aranha. Ele está em Londrina como convidado principal da 2 Oficina de Capoeira Angola de Londrina, que começa amanhã e prossegue até domingo.
Mestre Aranha fala pausadamente e é de uma serenidade admirável. Todos os ensinamentos foram repassados por mestre João Pequeno de Pastinha, lendária figura da capoeira, hoje com 85 anos. ''Fico muito feliz por ter me tornado mestre através dele, que é conhecido mundialmente'', disse Aranha.
O primeiro contato com a capoeira aconteceu em Salvador quando fazia o curso colegial. Já era moço formado. Lá conheceu amigos que faziam parte do grupo do mestre João Pequeno de Pastinha que o levaram para conhecer de perto essa arte cheia de técnica e ginga. ''Quando vi aquela roda de capoeira fiquei com aquela energia. Me inscrevi e no mesmo dia tomei aulas com mestre João Pequeno. Foi uma honra'', relembra.
Isso tudo aconteceu quando tinha 21 anos. Desde 89, ostenta o título de Mestre. Atualmente, Aranha é um dos responsáveis pelo Centro Esportivo de Capoeira Angola, localizado no Forte Santo Antonio, em Salvador, onde dá aulas e administra o funcionamento do espaço juntamente com seu mestre, João Pequeno de Pastinha. ''A capoeira só me trouxe tudo de bom, é minha religião'', afirma.
Uma das melhores lições que aprendeu foi o equilíbrio pessoal.''Entrei na capoeira para brigar com alguém. Até que o mestre me colocou na cabeça que capoeira é educação, cultura e principalmente arte'', relembra. A Capoeira Angola é considerada a mais tradicional e se caracteriza por golpes rasteiros, movimentação lenta e ritmos malemolentes ao contrário da chamada Capoeira Regional, outra variedade, que sofreu muitas influências dos brancos e que com o tempo passou a agregar, por alguns grupos, até mesmo golpes de artes marciais.
Não há uma estimativa de quantos praticantes há no Brasil. Em Londrina, o Grupo Capoeira Angola Forte Santo Antonio reúne cerca de 15 pessoas que, de terça até hoje, tiveram oficinas com o mestre baiano exclusivamente. Ah, sim por que o apelido? Quando começou a ter aulas de capoeira, mestre João Pequeno de Pastinha certo dia lhe perguntou como sobrevivia em Salvador. ''Disse a ele: 'só estudo e vivo do que teço'. E ele me falou: 'Você sabe que quem vive do que tece é aranha''', relembra. Daí que no dia do seu batismo na capoeira deixou de ser Isac para se tornar Aranha, hoje mestre e grande difusor da Capoeira Angola.


