O cineasta Karim A‹nouz decidiu levar a vida de Madame Satã às telas depois de ler o livro de Rogério Durst ''Madame Satã'', da coleção Encanto Radical, da Editora Brasiliense, lançado na década de 80.
Satã sobreviveu à margem da sociedade durante 76 anos. De cabelos pelos ombros, ele destruiu a socos de canhota o estereótipo do homossexual frágil e delicado. No entanto, era extremamente amoroso. Vários fatos contribuíram para construir sua figura mítica: amargou mais de um terço de sua vida na prisão; foi campeão de fantasias do baile dos Caçadores de Veados; foi pai adotivo de cinco crianças e usava os cabelos pelos ombros 40 anos antes dos hippies.
Na época do lançamento do livro, 1985, Durst falava do esquecimento do mito da Lapa e a deturpação de sua história no filme ''Rainha Diaba'', protagonizado por Milton Gonçalves. Satã concedeu em 1971 uma entrevista antológica (quais entrevistas não eram?) ao jornal Pasquim, que o colocou nas bocas novamente. Daí para sair um livro de memórias foi um pulo. Em 1972, ele lança ''Memórias de Madame Satã'', escrito por Sylvan Paezzo, publicado pela editora Lidador. Hoje, um exemplar desse livro é raridade. Dois anos depois integraria o elenco da peça ''Lampião do Inferno'', autoria de Jairo Lima, baseada em textos de cordel e dirigida por Luis Mendonça. Contracenavam com Satã duas jovens atrizes Tânia Alves e Elba Ramalho.
A boêmia começou a florescer na Lapa por volta de 1910 e atingiu seu período de ouro entre 1920 e 1940. A Lapa dispunha de uma fauna noturna bastante eclética: políticos, artistas e literatos, putas, sambistas e os malandros (jogador, vigarista, cafetão, valente, sambista e até funcionário público). Nesse microcosmo, o malandro-valente fez fama. Antes de ser Satã era conhecido como Caranguejo da Praia das Virtudes e também como Mulata do Balacochê. O apelido definitivo vingou em 1938, dado por um delegado carioca. Briguento e escandaloso, dava proteção aos rapazes da Lapa.
Em 1955, brigou com o sambista Geraldo Pereira. Num único soco, o sambista malandro caiu e morreu cinco dias após a briga. Fato que deixou Satã mais famoso. No mesmo ano, foi flagrado dando um golpe num cliente de uma prostituta. Pegou 10 anos de prisão. Na carreira de malandro, respondeu a 26 processos: 13 agressões, 4 resistências a prisão, 3 desacatos, 2 receptações, 2 furtos, um ultraje ao pudor e um porte de armas. Foi condenado a 10 desses processos, num total de 27 anos e 8 meses, a maior parte do tempo na Ilha Grande. Sua última passagem pela prisão recebeu liberdade dois anos após terminada sua sentença. Ao percorrer as ruas da Lapa, Satã decidiu retornar à Ilha Grande, vivendo da pesca, criação de patos, galinhas e cozinhando para fora nos seus últimos anos de vida.
Nascido em 1900 em Glória de Goitá (PE), o descendente de escravos tinha 17 irmãos. Quando criança sua mãe trocou o pequeno João Francisco dos Santos seu nome de batismo por uma égua, trauma que o perturbou até sua morte em 13 de abril de 1976.

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