'Personagem é quem impõe sua vontade'
FOLHA2 - Quando o personagem Nicolau foi criado?
Lucas Lima - Em 2004. Foi uma sequência pensada. Antes do ''Nicolau'', produzi uma sequência chamada ''Os Escoteiros'', que fiz durante um ano. Mas sentia falta de outros personagens, pessoas normais, com problemas normais, que as pessoas pudessem se identificar melhor. Queria personagens de todas as idades, pra não perder nenhuma piada, pra isso, nada melhor que um ''prédio'' de pessoas. O garoto Nicolau foi o primeiro, depois vieram tantos outros. A gente pensa que cria os personagens, mas na verdade é o personagem quem impõe sua vontade, ele quem diz como ele quer ser. Isso acontece sempre comigo, imagino uma coisa, mas no final, essa coisa vira outra, é maravilhoso.
Nicolau é uma tira para crianças ou para público de qualquer faixa etária?
A sequência ''Nicolau'' leva o nome do garotinho de oito anos que vive com sua mãe separada e seu papagaio de estimação, mas é muito mais que isso. Nela, eu conto a história de um montão de personagens dos mais variados. Um dos mais frequentes nas tiras é o Potiguá, o porteiro (isso mesmo, ele é potiguar), que acaba servindo de conexão com todos os outros. Bebês, crianças, adolescentes, adultos e idosos povoam o universo das tiras do Nic, garantindo boas risadas para todas as idades. O bacana no livro é que não é apenas um apanhado de piadas, mas uma história que é contada página a página. Se depender de seu sucesso, pretendo lançar uma coletânea por ano.
Quando você começou a desenhar?
Comecei a desenhar desde pequenino, como toda criança. Com uns onze, doze anos, criei minha primeira revista, uma revista de passatempos bem esquisitos onde, por exemplo, havia um jogo de sete erros que eu desenhei os dois quadros duas vezes (não como se deve fazer: desenhar um e ''criar'' os erros adicionando ou alterando coisas), de modo que um quadro ficou completamente diferente do outro! Acho que estava mais para o jogo dos sete acertos!! Entre outras barbaridades, no mesmo ano criei minha primeira revista em quadrinhos chamada ''Turma do Tiquinho'', um garotinho como eu, que passava por delícias e apuros como eu. Vieram outras depois, a ''Turma do Zequinha'', que teve maior longevidade, acho que foi até o número 5 ou 6, até vendi uma assinatura pra um amigo de escola. Enfim, alguém disse uma verdade certa vez: ''Toda criança desenha, o desenhista é aquele que não parou''.
Essa é sua primeira publicação em livro?
Como livro, sim. Antes dele, fiz muitas outras publicações, mas a mais significativa para mim foi a revista ''O Caricato''. Fiz 6 números dela, o sexto saiu somente na internet, no meu site (www.lucaslima.com). Essa revista foi feita junto com uma porção de ilustradores amigos meus. A gente se reunia num grande encontro (divertidíssimo) e decidia as pautas da edição que viria. Cada um ficava responsável por sua página e o trabalho das entrevistas e outros artigos eram divididos. É uma revista fantástica, um dia vou retomar essa publicação.
É possível viver de quadrinhos no Brasil?
Não é fácil, mas possível. Como todo casal moderno, minha mulher e eu trabalhamos, mas conseguiríamos viver dignamente só com meu trabalho. É importante ter em mente que desenhar é um ofício como qualquer outro, é necessário empenho e dedicação, como qualquer outro e é, também, tão difícil como qualquer outro.





