PERSONAGEM - Uma vida refeita através do desenho
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de novembro de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A maior surpresa do garoto foi saber que a combinação de papel, lápis e criatividade podiam valer dinheiro. Pois o menino não acreditava que poderia (até) sobreviver com seus próprios desenhos. Vivendo na rua desde os sete anos, no interior do Paraná, o jovem Denilson Paião, hoje com 18 anos, acumulou experiências de detenções, roubos, furtos e uso de drogas antes de descobrir o talento para as artes.
''Acho que me descobriram porque eu achei que qualquer um fazia isso'', revela. Não faz. Desenhando há menos de um ano, Denilson já é capaz de retratar, além de rostos conhecidos, o próprio cotidiano que viveu no preto e branco do grafite e papel. O resultado é a beleza dos traços combinados com a constatação de uma realidade nada agradável.
Nascido em Campo Mourão, Denilson foi criado pelo pai ao lado de quatro irmãos. A família não tinha condições financeiras, o que logo cedo levou o garoto a procurar comida e distração nas ruas. ''No começo eu ficava um dia ou dois fora de casa. Depois o tempo ia passando e eu nem lembrava mais que tinha família. Quando via já tinha passado um mês ou mais'', lembra.
Na cidade natal, Denilson chegou a ser preso mais de 20 vezes, conforme contabiliza. ''Naquela época não tinha diferença entre prisão de adolescentes e adultos. Todo mundo ficava na mesma cela e as condições eram bem ruins. Eu já apanhei muito de polícia'', conta. As detenções aconteciam por pequenos furtos e uso de drogas. Ele começou cheirando solventes e nem bem chegou à adolescência já tinha provado quase todos os tipos de drogas que encontrava, de maconha ao craque. ''Para você ter uma idéia eu ia para escola cheirando cola. Ia só para 'zoar' nunca aprendi nada e o que aprendia esquecia por causa da droga''.
A experiência fez com que só agora, há menos de um ano, o garoto começasse a descobrir o mundo das letras, pois antes não sabia ler ou escrever. A vida de Denilson começou a mudar quando, há dois anos, ele se mudou para Curitiba para acompanhar o pai, que procurava emprego. Na cidade grande, ele logo voltou a viver nas ruas, até que foi detido e passou a cumprir pena em semi-liberdade numa casa de recuperação para adolescentes. Foi quando perceberam as tatuagens tribais que ele mesmo fazia no próprio corpo e no corpo dos colegas.
''Uma senhora perguntou se eu conseguia desenhar uma ''Émília'' (a clássica boneca do Sítio do Pica-Pau Amarelo). Eu nunca tinha visto e ela me mostrou numa caixa de sabão-em-pó. Eu tentei e consegui. Ficou igualzinha'', recorda. A partir daí ele começou a trocar os desenhos por cigarro. ''Naquela época eu fumava e desenhava só para poder conseguir o cigarro que eu não tinha dinheiro para comprar. Nunca imaginei que o desenho pudesse ser uma profissão''.
Mas aconteceu. Primeiro ele foi convidado para desenhar durante o expediente de almoço num restaurante do Mercado Municipal de Curitiba. ''Eu levei lápis e papel para desenhar e mais dez desenhos que já estavam prontos. Eu vendi nove. Eu demorei para acreditar que aqueles desenhos valiam alguma coisa'', diz. Depois disso, Denilson já ralizou uma exposição (no Museu Alfredo Andersen, em Curitiba) e costuma levar os seus trabalhos para expôr em atividades de projetos de recuperação de adolescentes, na Capital e no Litoral do Estado.
''Com o desenho eu descobri um outro lado da vida. Um lado que eu não conhecia. Agora, eu não preciso pedir mais nada para ninguém e posso viver com meus próprios meios'', anima-se. Os traços do desenho levaram o garoto a ter vontade de aprender a ler e a escrever. ''Agora eu vejo a vida de outro jeito e consigo entender um monte de coisas que antes eu não compreendia'', revela.
Mas Denilson não pensa em cursar uma faculdade de artes. ''É muito caro e esse não é o meu alto. O meu alto é simples, é ter coisas simples. É ser o que eu sou hoje''. Com o dinheiro dos desenhos que vende, Denilson já consegue sobreviver sozinho. Alugou um quarto no bairro Alto da XV e compra suas próprias roupas e comida. Realidade nunca antes imaginada por ele e certamente não conquistada por muitos dos amigos com quem conviveu na infância.
''Eu só quero continuar desenhando e vivendo desse jeito. Eu gosto do que sou agora'', diz. O projeto do jovem desenhista agora é colocar no papel a realidade que já viveu. Atualmente, Denilson desenha rostos de pessoas, por encomenda, e até de famosos, como Che Guevara e Madonna a pedido de fãs. ''Às vezes eu copio de alguma fotografia, mas sempre mudo alguma coisa''. Ele também desenha retratos de garotos de ruas, cotidiano que quer mergulhar novamente, mas só nos traços. ''Eu já vi muita coisa, eu sei como é dentro da cadeia, sei como são os efeitos das drogas e quero mostrar isso com meus desenhos'', projeta.


