PERSONAGEM - Uma mulher das artes
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de junho de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba Você deve conhecer muitas histórias sobre perseverança. A história de Dona Irma Manfredini Domingues é uma delas, com a diferença de ser recheada de humor e resignação. Pois a despeito de todas as mazelas que a obrigaram a se distanciar da tão desejada carreira de atriz, a professora aposentada de música voltou a perseguir o seu sonho. Após ter criado seis filhos, ela se inscreveu numa escola de teatro em Curitiba. Às vésperas de completar 70 anos, Irma não acredita que a iniciativa foi tardia: ''Pelo contrário, fazer teatro está mudando a minha vida. Foi o que eu sempre quis. Agora, se Deus quiser não vou parar tão cedo.''
Irma nasceu em Carlópolis, no Norte do Estado (80 km ao Sul de Jacarezinho), e se mudou para Curitiba aos quatro anos. Foi nessa época que começou a frequentar a casa de uma madrinha, cujo irmão cantava nas rádios paranaenses. Não deu outra, a menina se encantou pela música. Um ano mais tarde já aprendia a tocar violão com um primo. O instrumento musical seria o primeiro de muitos que domina até hoje e que a levou a seguir a carreira de professora de música. Mas antes ela tentou outra coisa. E tentou com afinco, mas o pai sempre a afastava de seu objetivo.
''Meu pai era muito preconceituoso. Quando soube que eu estava participando de rádio-novelas ficou furioso'', conta Irma. Foi na era dourada do rádio, quando este era o principal caminho seguido pelos artistas, que ela decidiu que queria ser atriz. Com uma bela voz começou cantando, mas logo passou a receber convites para integrar o elenco das rádio-novelas produzidas nas principais rádios da cidade, incluindo a extinta PRB2.
Escondido do pai e apoiada pela madrinha, conseguiu fazer dezenas de papéis antes de ser descoberta. ''Era uma época mágica'', lembra revelando que muitas vezes as novelas também eram regidas pela censura. ''Tramas com mulheres separadas ou jovens que tinham filhos sem casar não podiam ir para o ar'', recorda. E ressalta também que era uma fase em que o ofício do ator era bastante solitário. ''O ator contava apenas com a voz, não tinha todos os recursos e técnicas que existem hoje''.
Das diversas passagens cômicas (e algumas trágicas) que presenciou nos estúdios, salienta uma que marcou sua carreira relâmpago nas rádios. Certa vez, ela estava gravando com o elenco uma história de um casal que passeava em um jardim, acompanhada da irmã mais nova da mocinha. O papel da menina era interpretado por Irma, que deveria gritar baixinho em uma cena em que o seu pé enroscava em uma árvore. Mas exatamente nessa cena, enquanto a novela estava no ar, Irma prendeu o pé em um dos diversos trambolhos que a sonoplastia das rádio-novelas exigia. E ela gritou de verdade, mas ninguém notou que tinha se machucado. Até que o narrador, esquecendo a voz habitual do papel que interpretava falou: ''Acode essa menina para ela parar de gritar!''.
Risos à parte, eram nesses momentos peculiares que as rádio-novelas mostravam a força da improvisação. ''Quando acontecia alguma coisa assim, geralmente os narradores chamavam os 'reclames''', conta. Nas rádio-novelas, Irma chegou a trabalhar com grandes nomes da época, como Adelair Rodrigues. Outros artistas que ganhariam fama nacional, como Aracy de Almeida e Ary Fontoura, também faziam parte do círculo de amigos de Irma.
Mas por insistência do pai, ela acabou deixando a carreira. A última rádio- novela que participou foi em 1959, quando também levou o filho, na época com um mês de idade, para uma participação especial. ''Eles precisavam de um bebê chorando. Foi muito engraçado porque a família inteira ligou o rádio para escutar a nossa participação na novela'', lembra.
Depois disso, Irma se dedicou à família e a carreira de professora. ''Não sou uma pessoa frustrada, mas tenho muitas saudades da minha infância e adolescência e queria muito ter seguido a carreira de artista'', conta. E o desejo era tão forte que mais de quarenta anos depois, passando em frente à Escola de Teatro Cena Hum, dirigida por George Sada, Irma decidiu: ''É agora ou nunca'', falou. Era o mês de outubro de 2003 e naquele mesmo ano a professora ganharia o troféu de ''Atriz Revelação'' da escola.
Dois anos depois, ela já participou de muitas cenas e esquetes, mas ainda não realizou o sonho de contracenar com o próprio Sada, proprietário da escola, ator e diretor de teatro. ''Agora eu não tenho mais intenção de fazer teatro profissionalmente, mas quero continuar aprendendo com essa arte'', pontua. Atualmente, ela está decorando o clássico ''Sonho de uma noite de verão'', de Shakespeare, para um montagem da escola, ainda sem data para estrear.


