Curitiba - Não chega a ser um paradoxo, mas é no mínimo estranho escutar as músicas gravadas por Bezerra da Silva no disco ''Meu bom juiz'' que acaba de chegar às lojas e relacionar o rei da malandragem à Igreja Universal do Reino de Deus. Sim, o sambista se converteu no ano passado, mas avisa que isso não influencia seu trabalho. Ele até já escolheu as músicas que devem integrar um disco religioso, ainda sem gravadora, mas adianta que o ritmo vai permanecer o mesmo, ''só vai mudar o verso''. Já a personalidade também não deve sofrer alterações. Aos 75 anos, Bezerra da Silva se reserva o direito de escolher o seu próprio repertório, entre centenas de músicas inéditas que coleciona. Em seu 28º disco, recém-lançado pela gravadara Cid, não é diferente.
O CD reúne 11 sucessos antigos escolhidos a dedo pelo cantor e ainda três músicas inéditas. Uma novidade é a participação especial de Marcelo D2 - ex-Planet Hemp. Os dois se conheceram quando o grupo Planet Hemp gravou uma música que já havia sido interpretada pelo sambista veterano e convidou Bezerra para uma participação especial em um show no Canecão, no Rio de Janeiro. ''Nós cantamos juntos na quinta e no final de semana seguinte eles tiveram aquele problema com a polícia, em Brasília'', lembra Bezerra se referindo a prisão do grupo por apologia à maconha no final da década de 90.
Coincidência ou não no disco ''Meu Bom Juiz'', Marcelo D2 faz uma parceria com o sambista na música ''Garrafada do Norte''. A letra é curiosa ''O Planet Hemp quer saber porque essa erva é proibida/Tem gente que diz todo prosa/Esta planta é maneira é medicinal/Só o chá da raíz faz milagre e quem beber fica livre do mal.''
Em outra faixa, ''A fumaça já subiu pra cuca'', Bezerra canta, dessa vez, sozinho: ''Não tem flagrante porque a fumaça já subiu para cuca/Deixando os tiras na maior sinuca.'' E se as letras dão margem a uma interpretação dúbia, questionado sobre o assunto, Bezerra diz com seu habitual bom humor. ''Eu entendo porque as pessoas fazem essa referência, é ignorância. O disco tem duplo sentido, mas a pessoa bota o sentido que quer. Cada um interpreta à sua maneira'', esquiva-se.
Para ele, o disco recém-lançado é uma ''aula de direito''. Na letra de ''A fumaça já subiu para cuca'', por exemplo, o cantor revela que é um recado para a Justiça. ''Ninguém pode prender sem provas'', explica. Para ele, o disco é uma cadeia de esclarecimentos. ''É como se fosse uma mulher bonita sem pintura'', metaforiza.
Outra curiosidade do disco é que ele sai pela gravadora Cid. O músico começou a lançar seu trabalho pela gravadora na década de 70 e de lá para cá já rompeu e voltou a assinar contrato com a empresa quase uma dezena de vezes.
''As pessoas comparam meu relacionamento com a Cid com relacionamento de marido e mulher. A gente briga, mas sempre volta a se encontrar'', brinca.
Porém, a princípio, a gravadora não deve assumir o projeto de Bezerra de lançar o disco só com músicas religiosas. O CD está sendo produzido pela mulher do músico, Regina do Bezerra, e ainda aguarda patrocínio. ''O Edir Macedo (pastor e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus) tem uma gravadora, a Line Records, mas meu disco não encaixa no perfil deles'', conta.
Sambista criado no morro, Bezerra revela que não pretende deixar o samba morrer por causa da religião. ''Acho engraçado que as pessoas se espantem que entrei para Igreja Universal. Ninguém acha estranho se uma pessoa é católica'', alfineta. Diz ainda que não pode perder a influência do samba por causa de toda a sua história com o ritmo brasileiro.

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