Curitiba - No lugar de renas, uma equipada moto Harley Davidson. Em vez do gorro, um capacete vermelho. Os acessórios podem ser diferentes, mas na hora de reconhecer o personagem, não há dúvida: é o Papai Noel. Apesar da distinção, algumas características não ficam de fora. A barba branca é legítima e o espírito natalino também. E foi esse espírito que levou o autônomo Moisés da Silva, mais conhecido como Capitão Moita, a incorporar a figura natalina e estender o personagem para o seu hobby predileto. Há mais de uma década ele transformou a sua moto em um verdadeiro trenó, com direito a saco de presentes e pacotes de balas. A bordo da motocicleta, ele passeia pelas ruas de Curitiba e, claro, ninguém deixa de notar a insólita figura.
Incorporar o Papai Noel é um hábito do ''capitão'' que veio depois da sua paixão pelas harleys e nasceu pela indignação de ver velhinhos para lá de artificiais. Em meados da década de 90, passando o Natal com a família e amigos não gostou de receber em casa, um Papai Noel fajuto. ''Ele parecia um poodle de barba'', brinca. Pai de cinco filhos ele sabe que as crianças de hoje não engolem qualquer brincadeira ou fantasia. Para viver o bom velhinho é preciso mais que boa vontade. É preciso legitimidade. Foi por isso, que em 1996, decidiu deixar a barba crescer, já pensando no futuro do personagem que viria a começar a interpretar.
No começo até encarou uma barba artificial, mas investiu na fantasia. ''Era uma barba bonita. Eu investi na roupa e nos acessórios e, para dar ainda mais veracidade, pintava a sobrancelha'', conta. Tudo isso sem nenhuma intenção comercial. Vestido de Papai Noel, ele começou a sair às ruas e a distribuir balas, fazer aparições relâmpagos em locais públicos e em comunidades carentes e também fazer as vezes do personagem na própria família, sem ser reconhecido pelos parentes mais próximos.
A sua primeira aparição pública foi em grande estilo. Ele conseguiu reunir mais de 200 motoqueiros, ''duendes'' que o seguiram num grande passeio pela cidade. A partir daí ele resolveu assumir o personagem. Todos os anos ele coloca um grande saco vermelho na garupa da moto e uma provisão de balas e doces o acompanham. As guloseimas são compradas com dinheiro do próprio bolso, investimento que o Papai Noel curitibano não se arrepende de fazer.
Principalmente por algumas provas que teve, ao longo de sua experiência, de que o verdadeiro Papai Noel existe. ''Duas situações me marcaram muito'', recorda. Em uma delas, ele foi deixar, caracterizado, um presente para a filha na noite de 24 de dezembro. Quando estacionou a moto, uma criança pequena, vestida com poucas roupas e descalça, apesar do frio, veio lhe pedir balas.
''Naquele dia eu tinha saído sem nenhum doce. Eu me virei para pedir para minha filha buscar, quando voltei para falar com a criança, ela tinha sumido. E era uma quadra grande, não dava tempo dela desaparecer.'', lembra. Desde aquele dia, ele nunca mais saiu sem balas quando está vestido como Papai Noel. ''A criança fica muito frustrada''.
Em outra ocasião, ele apareceu como voluntário na empresa de um amigo para distribuir doces. Com a ajuda da mulher preparou 160 pacotes, o número de crianças indicado pela empresa que estariam no local. Além desse número, prepararam outros 50 pacotinhos extras.
''Naquele dia muitas crianças entraram na fila duas ou mais vezes, como havia esses pacotes extras não me preocupei. Quando o evento terminou ainda sobraram alguns pacotinhos, uma quantidade pequena, mas eu decidi passar na Vila São Pedro para falar com um amigo meu. É uma comunidade muito carente e quando eu parei a moto, choveram crianças e adultos para pegar balinhas. Eu fui distribuindo para todo mundo vendo a hora em que eles iam ficar sem. Quando todos foram embora, eu fechei a sacola e voltei pra casa. Quando cheguei, ainda tinham sobrado muitos pacotes. Até hoje não sei como isso aconteceu. Minha mulher, que é muito organizada com essa coisa de quantidade, também ficou impressionada'', revela Moita, salientando que passou a acreditar em situações místicas e desde então mantém o espírito natalino vivo ano após ano.
''Incorporar o personagem não é algo que você não aprende na escola. É uma coisa inata e que você pode desenvolver'', ensina o capitão. Só para se preparar para as suas aparições ele leva duas horas, maquiando-se e vestindo-se. Não adianta, no entanto, tentar contratá-lo para aparições comerciais. Essas, ele não aceita e nem gosta de fazer. ''Quando me pedem com antecedência, visito alguns orfanatos ou asilos voluntariamente, mas não gosto de agir como um taxímetro, cobrando por minuto. Isso não tem nada a ver com o Natal'', considera. O jeito é olhar para o céu, ou melhor, para as ruas, e esperar que esse insólito Papai Noel apareça.

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