PERSONAGEM - Lembranças reveladas por um LAMBE-LAMBE
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de julho de 2006
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Depois de tanto fotografar, hoje Messias Bezerra, o último fotógrafo ambulante londrinense, é quem faz questão de ficar bem na foto para contar como a história dos lambe-lambes em Londrina pode começar e terminar no mesmo lugar.
No começo dessa história, recheada com o romantismo de uma época em que a Praça Floriano Peixoto, ao lado da Catedral Metropolitana, era povoada de canteiros de roseiras, está o primeiro fotógrafo londrinense, José Juliani.
Setenta anos passaram rápido, desde que Juliani registrou Londrina na década de 30, fotografando a quadra de tênis dos ingleses, a primeira escola japonesa e mister George Craig Smith em pompa de pioneiro.
As roseiras da praça secaram, cresceram pés de café no lugar. Hippies, artesãos e camelôs tomaram conta do pedaço e, um dia, até eles, os lambe-lambes tiveram que abandonar o largo.
Exatamente no mesmo lugar em que o mais célebre retratista londrinense também trabalhou José Juliani , um outro fotografo diz agora, que vai pôr fim à história de uma profissão tão antiga, que perdeu a praça, o 3X4 em apenas meia-hora, as fotos de festas de casamentos e aniversários. A tecnologia não pediu licença nem à lembrança do convite lisonjeiro à vaidade sempre que alguém ouvia o aviso: ''Olha o passarinho''.
Messias Bezerra, 61 anos, o último dos lambe-lambes londrinenses, conta que em breve não será visto mais na pracinha. ''Esse ponto foi do José Juliani. A história da fotografia em Londrina começou e vai terminar aqui'', conta Bezerra.
Ao circundar o ar com o dedo para mostrar o lugar exato, o fotógrafo entra por esse fio da história, lembrando da própria vida que ao seu ver daria uma novela. Novela não, uma fotonovela. ''Há 32 anos, eu trabalho nesse mesmo lugar. O meu pai já mexia com foto e acabei ficando na profissão. Já fiz outras coisas. Fui até funcionário público. Às vezes, a gente pensa...Entrei duas vezes na prefeitura e pedi para sair. Como lambe-lambe ganhava mais do que gerente de banco'', lamenta Bezerra.
Continuando a conversa, o próprio fotografo parece que diz a si mesmo: ''deixa de lamentações rapaz'', desviando a conversa para a viagem do Recife (PE) ao Paraná de pau-de-arara. ''Eu tinha uns seis ou sete anos de idade. Os meus pais trouxeram os seis filhos. Gastamos 11 dias até São Paulo. Se for contar a minha vida inteirinha, daria história para mais de 15 dias'', lembra o lambe-lambe.
Bezerra ressente também de não ter guardado fotos antigas e que lembrassem da chegada à cidade, onde durante uma quinzena ficou morando na Rodoviária de Londrina, onde hoje é a Concha Acústica, retratada nas fotos de Juliani.
O pai do ainda menino nordestino, buscava o almoço da família no Grande Hotel, enquanto as novidades chegavam e partiam da rodoviária serena à vida e aos dramas dos migrantes e imigrantes em volta. ''O meu irmão usava um chapéu de couro, caprichando na arte do repente para ganhar alguns trocados. Há mais de 35 anos, ele desapareceu. Disse que ia para o norte. Ele sim, sabia ganhar uns trocos'', comenta Bezerra, rascunhando na saudade do nordeste, o quintal de casa, onde a mãe enterrou o umbigo da filharada.
''Alegria eu tinha quando trabalhava mais. Hoje, o serviço acabou. Antes faziam filas para fotografar com a gente. Teve dia em que fotografei até 65 pessoas. Hoje, o máximo são dois 3x4 por dia. Antigamente, quem tinha pressa e queria a foto na hora, procurava a gente. Não fazemos mais foto em preto e branco porque não tem mais química. Agora, se tivesse uma máquina digital, um computador e uma impressora na praça, poderia fazer fotos coloridas. Como não dá, tiro o retrato e mando revelar'', conta o fotografo, emoldurando na narração, a lembrança de ter participado de duas bienais de fotografia.
Alguns historiadores afirmam, como Boris Kossoy, que o nome ''lambe-lambe'' surgiu porque os fotografos ambulantes lambiam a placa de vidro para saber qual o lado da emulsão. Também dizem que se lambia a chapa para fixá-la.
Assunto que interessa pouco para Bezerra, preocupado mais com a prática do que com a teoria. Uma rotina que, nos últimos dez anos, assistiu ao desaparecimento dos colegas de profissão. ''O velho Juscelino mesmo trabalhou 42 anos embaixo desta árvore'', aponta para a sombra vazia.
Com as mãos firmes de quem segura o maior segredo de sua arte, Bezerra revela que uma boa foto depende da luz. ''Eu criei os meus filhos com a máquina de fotografar. Consertava e fazia peças de máquinas. Também fiz muito carrinho de algodão doce, outra coisa que já se tornou velha'', conta Bezerra com a mesma nostalgia, que nunca se desfaz na boca como o doce, e que não fica amarelada feito uma foto antiga.


