Um bocado de gente cresceu ouvindo, da mãe, as histórias inventadas por Hans Christian Andersen (1805-1875). Neste sábado, quando se comemora o bicentenário de seu nascimento, narrativas famosas como ''O Patinho Feio'', ''O Soldadinho de Chumbo'' e ''O Rouxinol'' voltam a ser lembradas em todo o mundo como pioneiras da literatura infantil.
A passagem da data será celebrada com pompa na Dinamarca, onde o governo criou uma ''fundação'' especialmente para ajudar na divulgação das homenagens ao filho mais ilustre do País. Para executar a tarefa, elegeram-se personalidades de diversos países que atuarão como ''embaixadores da causa''. O ministro da Cultura, Gilberto Gil, será o representante brasileiro no comitê.
O mercado editorial local também aderiu à efeméride colocando alguns títulos nas prateleiras, como o volume ''Uma vida de contos de fadas A história de Hans Christian Andersen'', lançado pela Editora Ática. O título da obra não é exagero para atrair leitores desavisados. A trajetória de Andersen tem, mesmo, muito de fábula encantada.
Filho de sapateiro com uma lavadeira, ele tentou diversos ofícios antes de seguir sua vocação. Teve uma vida de menino pobre morando numa casa apertada, de um cômodo só, na cidade de Odense. Órfão de pai aos 11 anos, pouco frequentou a escola. Sua mãe o colocou para trabalhar numa oficina de tecelões, depois entre tabacoeiros e posteriormente entre entalhadores.
O pequeno Hans, todavia, não conseguia se adaptar ao empregos sonhando em se realizar no universo das artes. Consta que ele, dono de memória privilegiada, guardava na cabeça tudo o que ouvia de um vizinho que tinha por hábito estudar em voz alta. Decorava poemas e pequenas peças. Gostava também de imitar mímicos, bailarinos e acrobatas.
Aos 14 anos, aventurou-se sozinho em Copenhagen. Para sobreviver na capital dinamarquesa, começou cantando num coro de meninos, o que lhe garantia alguns trocados. Tentou ingressar em companhias de dança, mas foi reprovado nos testes. Quando completou 17 anos, sua vida finalmente tomou os rumos sonhados ao chamar a atenção de Jonas Collin, chanceler e diretor do Teatro Real, que leu uma peça de Hans e reconheceu seu talento.
Collin recorreu ao Rei pedindo auxílio financeiro para a educação do futuro escritor. Posteriormente, a majestade bancou uma viagem de um ano e meio do jovem, que percorreu diversos países europeus atrás de experiências. Mais tarde, suas observações foram transformadas em diários, poemas, contos, peças teatrais e apontamentos de viagem.
Seus primeiros textos foram publicados em 1829. A obra que o torna célebre em todo o mundo é ''Contos'', traduzidos para uma infinidade de idiomas. Andersen escreveu mais de 150 narrativas, que foram editadas anualmente e lançadas sempre durante o Natal. Escrever contos de fadas foi uma ousadia do dinamarquês. Antes dele, apenas Charles Perrault e os Irmãos Grimm haviam publicado esse tipo de história em livro.
A diferença é que eles tinham reunido contos tradicionais de seus países, que as pessoas já conheciam. Andersen foi o primeiro autor a inventar as próprias fábulas. De sua pena pularam escritos como ''A Princesa e o Grão de Ervilha'' (1835), ''A Pequena Sereia'' (1836), ''A Roupa Nova do Imperador'' (1837), ''O Soldadinho de Chumbo'' (1838), ''O Patinho Feio'' (1844), ''Os Sapatinhos Vermelhos'' (1845) e ''A Menina dos Fósforos'' (1846).
Na época, os livros infantis eram sisudos e cheios de lições de moral. A beleza e fantasia das histórias de Hans Christian, cheias de seres mágicos e lugares imaginários, logo encantaram adultos e crianças dentro e fora da Dinamarca. Gerações agradecem.

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