''Eu acho que artista precisa de uns cem ou duzentos anos para realizar toda sua arte''. Aos 70 anos aparentando cerca de dez a menos , o artista plástico japonês Ken'ichi Kaneko exala talento com suas obras e história de vida.
Integrando o rol artistas da exposição ''Travessias Os Caminhos de Oito Artistas Imigrantes do Pós-Guerra'', que está no Museu de Artes de Londrina, Kaneko revela que suas telas ''são resultados de um mistério que envolve o movimento de cultura mundial''.
Nascido na cidade de Yokohama, o artista viajou pela primeira vez ao Brasil em 1960 para participar da 7 Bienal Internacional de Artes em São Paulo, e por lá se instalou. ''Por incrível que pareça, não tinha nada de estranho. Mesmo que houvesse a dificuldade de comunicação com a língua verbal, a linguagem artística fluía naturalmente entre a gente'', disse. Com nítidas lembranças da II Guerra Mundial, Kaneko diz buscar inspiração para suas cores vivas nas tristes sensações captadas durante esse período. ''Eu vi o inferno. Quanto mais eu sentia esse mundo problemático e triste, mais claras e alegres eram minhas telas. O contrário também acontece, pois quando estou feliz, às vezes me sinto só em meio à multidão. A arte é um pouco de fantasia: a verdadeira mentira, que é a realidade'', provocou. Suas primeiras intervenções com pincéis aconteceram muito cedo, e aos 14 anos já assinava uma exposição individual. ''E isso foi escondido do diretor da escola, porque naquela época as regras eram muitos rígidas. Mas depois eu enviei um convite a ele, que acabou gostando do meu desempenho'', disse.
Na exposição, que segue até o dia 30 de abril, Kaneko apresenta as obras ''Calendário Anual'' e ''Continente'', totalizando um conjunto de 14 telas. ''Na primeira, eu representei o cotidiano. Na segunda, diversos complementos: metade japonês e metade brasileiro, duas possibilidades, encontro e desencontro'', explicou.
Além de Kaneko, mais sete artistas japoneses expõem suas obras: Bin Kondo (68 anos), Kazuo Wakabayashi (74), Ken'ichi Hirota (1932-2004), Sachiko Koshikoku (68), Tomashigue Kusumo (70), Yukio Suzuki (1926-2004) e Yutaka Toyota (74). Segundo ele, o grupo pertence à segunda geração de artistas japoneses imigrantes do Japão. ''Viemos para o Brasil há quase 50 anos e temos fortes influências do período da guerra. Após a II Guerra, o mundo ficou mais aberto. Quem mais sofreu foi a primeira geração, já que Brasil e Japão eram países inimigos. Um terceiro grupo está se formando são os nascidos no Brasil, mas que são filhos de pais japoneses'', explicou.
''Quando as pessoas observavam minhas telas, diziam que meu estilo lembrava o de um determinado artista espanhol. Eu perguntava 'de que maneira', se até então eu não tinha visto nenhuma obra desse artista?'', argumentou. Para ele, a linha tênue que simbolicamente separa os países é inexistente.
Sem negar a idade, mas desafiando o futuro com diversos projetos, Kaneko faz teatro, atua em novelas, conversa com velhos, crianças, jovens e chora com os acontecimentos do mundo.
Aos leitores mais atentos a fisionomias, o artista é conhecido, sim, em outras frentes de atuação: atuou nas duas versões de ''Gaijin'', filme de Tizuka Yamazaki, interpretando o assassino Jiro Kobayashi e, atualmente, Kaneko pode ser visto na novela global Bang Bang vivenciando o papel de um gigolô. Para quem ''a idade é um tesouro pessoal'', esse artista de múltiplas funções saboreia com sábia filosofia as 24 horas de seus dias. ''A vida é uma potência de querer viver de verdade'', ponderou.

Serviço:
- Exposição ''Travessias Os caminhos de Oito Artistas Imigrantes do Pós-Guerra''. No Museu de Arte de Londrina (Rua Sergipe, 640). Até o dia 30 de abril, de segunda à sexta-feira, das 10 às 18 horas e aos sábados, das 8 às 13 horas. Entrada franca. Outras informações pelo telefone (43) 3337-6238.

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