Persona, de Bergman
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de julho de 1998
Lélio Sotto Maior Junior 
Ingmar Bergman é o cineasta que melhor sabe traduzir cinematograficamente a alma confusa, conturbada e nebulosa do Nórdico (aquela mescla de protestantismo, liberalismo, puritanismo, existencialismo, agnosticismo e niilismo). Embora cineasta de vanguarda, Bergman nunca foi um cineasta esteticamente revolucionário: seus filmes obedeciam aquele academicismo de cinema mudo que é uma tradição do cinema nórdico (Sorrisos de Uma Noite de Verão, A Fonte da Donzela, O Rosto, O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, (este último sua obra-prima).
Daí a surpresa de Persnona, um filme anárquico onde Bergman destrói uma série de regulamentos fílmicos, utiliza os acasos e acidentes da projeção como linguagem cenematográfica, mostra o celulóide dentro da cabina de projeção, queima propositalmente o filme, tudo isto dando a impressão de destruição deliberada do cinema, de Kaos plástico-sonoro.
Bergman em Persona fez anti-cinema, e se aproximou dos grandes destruidores da Arte: José Celso Martinez no teatro, Décio Pignatari na poesia, John Cage na música, Godard no cinema. Persona é o primeiro filme iconoclasta do cinema, porque destrói literalmente as imagens cinematográficas, remetendo a arte fílmica a um verdadeiro apocalipse visual-sonoro.


