Dez para o meio-dia. O sinal toca e a criançada se prepara para sair da escola. A algazarra é geral e, como em todas as escolas, elas saem correndo para chegar logo em casa para almoçar. Mas para Naila Menezes de França, 14 anos, o caminho ainda é longo: são mais 24 quilômetros, utilizando ônibus, Kombi, barco e trator até chegar em casa. Ao todo, considerando ida e volta, são 48 quilômetros de estrada, todos os dias, que ela percorre para realizar o sonho de concluir os estudos.
Aluna da sétima série da Escola Municipal Armando Rosário Castelo, do distrito de Paiquerê (30 km ao sul da área urbana de Londrina), Naila é considerada uma aluna exemplar. No boletim, repleto de ''noves'', percebe-se que o adjetivo não é em vão. A sua matéria predileta é inglês e nos seus sonhos está o desejo de trabalhar com informática. Ela nunca teve acesso ao computador, mas já sabe, ''pela televisão e pelas minhas leituras'', que há muito o que a aprender com essa ferramenta. ''Posso mandar e-mails, fazer pesquisas diversas, conhecer mais pessoas, procurar empregos...tudo com a auxílio do computador'', comentou. E, com esse objetivo, a ''via-crucis'' diária acaba ficando mais leve...
Na volta para casa, a maior parte da estrada é de chão, o que causa um certo desconforto, mas não falta animação dentro do ônibus que vai deixando os alunos nas propriedades rurais onde moram. Eles vão cantando e o repertório vai de Sandy e Júnior à KLB, os preferidos dos adolescentes. A música ajuda a passar o tempo, assim com a paisagem do caminho, que é simplesmente exuberante. O excesso de poeira também passa despercebido.
Em Guairacá, patrimônio de Paiquerê, Naila troca de transporte. Pega uma Kombi da prefeitura, junto com outros colegas. O objetivo é chegar até o Porto de Areia Eldorado, à beira do Tibagi. Ela é a última da linha e, quando chega, o seu pai já está esperando para levá-la para casa, de barco. Na outra margem, o trator azul está a postos para o transporte até a fazenda onde moram, na região de São Jerônimo da Serra (78 km ao sul de Cornélio Procópio).
De manhã, a trajetória se reinicia. Quando acorda, antes mesmo do sol nascer, por volta das 5 horas, Naila admite que dá uma ''certa preguiça'', mas não dá para enrolar não. Mesmo nos dias mais frios, o pai já a aguarda para levar de trator até a beira do rio onde eles fazem a travessia. Os seus dois irmãos Júnior, 11 anos, e Débora, 10 anos, também vão juntos. Ao chegar do outro lado, a Kombi da prefeitura já está esperando. O destino é Guairacá, patrimônio de Paiquerê, onde a sua irmã mais nova fica para estudar. De lá, Naila e o irmão seguem, de ônibus, até Paiquerê. O tempo gasto é de aproximadamente uma hora e meia e tudo para não chegar atrasada na aula.
A diretora da escola, Maria Angela Seixas disse que Naila impressiona pela sua assiduidade. ''E isso é desde que ela era pequena. Sua determinação é exemplo e só falta quando realmente está chovendo muito. Diferente de muitos que têm tudo à mão e não aproveitam'', afirmou.
Naila confirma que é raro faltar, mas que isso acontece, principalmente, quando o rio está cheio:''O excesso de água faz com que se formem redemoinhos, que podem acabar virando o barco.'' O barro nas estradas também prejudica a trajetório, aumentando o risco dos veículos atolarem.
O apoio da família também é destacado pela professora. Apesar de morarem em uma propriedade rural e Naila não apresentar nenhum problema na escola, um dos pais sempre está presente nas reuniões escolares para acompanhar o andamento dos estudos dos filhos.
O administrador de fazenda, José Pedroso Mota, fala que é com satisfação que incentiva os filhos a estudarem. ''Eles estão animados e quero que eles terminem pelo menos o segundo grau.'' Ele não teve a mesma oportunidade e lembrou que, antigamente, os pais não davam muito apoio para os filhos estudarem. ''Estudei até a quarta série e trabalho na roça desde criança'', contou.
Mota não concorda com o trabalho infantil na roça e não exige isso dos filhos. Questionando sobre o que faria se tivesse tido a oportunidade de estudar, Mota acredita que isso ampliaria suas oportunidades de trabalho. ''Saberia muito mais coisas, poderia trabalhar melhor, mas gostaria de continuar trabalhando na roça, porque é aqui que fui criado e o campo também precisa de gente com estudo'', destacou.

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